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Análise

Traduzir os recordes na vida das pessoas

O sucesso de uma economia não pode medir-se apenas pelo número de turistas

A Madeira vive um paradoxo económico cada vez mais evidente. Nunca o desemprego esteve tão baixo (há quase pleno emprego), nunca o turismo gerou tamanha dinâmica e nunca a economia regional apresentou indicadores tão robustos. Contudo, ao mesmo tempo, constata-se que a prosperidade não chega de forma igual à população. A economia cresce, mas o custo de vida avança ainda mais depressa.

Os números mais recentes confirmam o bom momento económico da Região. No primeiro trimestre de 2026, a taxa de desemprego fixou-se nos 4,5%, a mais baixa do país e uma das menores de sempre na Madeira. O turismo continua a bater recordes, com 520,7 mil hóspedes e 2,70 milhões de dormidas nos primeiros três meses do ano. O movimento aéreo também cresceu, sustentando uma economia fortemente dependente da actividade turística e dos serviços.

Os dados fiscais divulgados pela Direcção Regional de Estatística reforçam essa ideia de dinamismo. O IRS arrecadado pela Região aumentou 8,7% em 2025, atingindo 288,1 milhões de euros. O IVA disparou 70% em 10 anos! Segundo a própria DREM, esse crescimento reflecte o aumento da actividade económica, da população empregada e da remuneração média por trabalhador, que subiu 5,1%.

Mas é precisamente aqui que surge a principal contradição. Apesar do crescimento económico, das receitas fiscais e do emprego, a sensação dominante entre muitas famílias é a de perda de poder de compra.

A inflação mantém-se persistentemente acima da média nacional. Em 2025, a Madeira registou uma inflação média de 3,5%, contra 2,3% no país. Continua acima neste ano. O impacto é particularmente duro numa região ultraperiférica que depende quase totalmente da importação de combustíveis, bens alimentares e matérias-primas. A recente escalada de tensão no Médio Oriente voltou a pressionar os preços da energia e dos transportes, repercutindo-se no custo dos produtos essenciais.

A consequência é visível no quotidiano: o cabaz alimentar atingiu máximos dos últimos anos e os custos com combustíveis e habitação absorvem uma fatia crescente dos rendimentos familiares. Mesmo com aumento salarial nominal, muitos madeirenses sentem-se mais pobres do que há alguns anos.

Os próprios dados fiscais revelam sinais contraditórios. Enquanto o IRS sobe devido ao aumento da actividade económica, a receita global de impostos da Região praticamente estagnou em 2025. O crescimento foi residual: apenas mais 567 mil euros do que no ano anterior. Em Portugal, a receita fiscal cresceu 6,7%.

Também o IVA, o principal imposto indirecto da Região, caiu 4,1%, apesar da economia continuar a crescer. A redução da taxa de IVA ajudou a aliviar parcialmente as famílias, mas mostra igualmente como o consumo começa a ressentir-se da pressão inflacionista. Há mais actividade económica, mas isso não significa necessariamente maior conforto financeiro para quem vive do salário.

A habitação continua a ser o maior símbolo desta desigualdade crescente. O preço mediano das casas na Madeira atingiu 3.725 euros por metro quadrado, colocando a Região entre as mais caras do país. Apenas Lisboa e Algarve apresentam valores superiores.

O problema agrava-se porque os salários não conseguem acompanhar a valorização imobiliária. O turismo, o investimento externo e o alojamento local continuam a pressionar os preços, afastando cada vez mais os jovens do mercado da habitação. Muitos casais não conseguem comprar casa, enquanto outros são obrigados a suportar rendas incomportáveis.

Não surpreende, por isso, que a sobrelotação habitacional na Madeira seja quase o dobro da média nacional. Muitas famílias vivem em espaços reduzidos, partilhando casa entre gerações, numa tentativa de enfrentar custos que se tornaram excessivos para a classe média.

A isto junta-se outro problema estrutural: o envelhecimento da população. A Madeira é uma das regiões mais envelhecidas do país e enfrenta dificuldades crescentes em fixar jovens qualificados. Há emprego, mas nem sempre existe estabilidade, progressão ou remuneração suficiente para construir um projecto de vida sólido.

Persistem igualmente sinais de fragilidade social. Grande parte do emprego criado concentra-se em sectores de baixos salários e forte dependência externa, sobretudo ligados ao turismo e serviços.

A Madeira enfrenta hoje um desafio que vai muito além do crescimento económico. O problema já não é gerar riqueza. É perceber quem beneficia dela. Os indicadores macroeconómicos são positivos e devem ser valorizados. Mas o sucesso de uma economia não pode medir-se apenas pelo número de turistas, pelas dormidas ou pelas receitas fiscais. Mede-se sobretudo pela capacidade de garantir estabilidade, habitação acessível, poder de compra e perspectivas de futuro à população.

Enquanto essa ligação entre crescimento e bem-estar não for reforçada, continuará a existir uma sensação de prosperidade desigual numa Região onde os números impressionam, mas onde muitas famílias continuam a viver sob forte pressão económica.