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Director da AIEA admite que mais países possam querer desenvolver armas nucleares

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Foto EPA

O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Grossi, admitiu hoje a possibilidade de mais países considerarem desenvolver armas nucleares devido a fatores geopolíticos como crescentes tensões e desconfiança.

Numa conferência de imprensa, em Nova Iorque, Grossi foi questionado sobre o quão preocupado está com a possibilidade de alguns Estados estarem agora a considerar desenvolver armas nucleares porque receiam não conseguir responder às ameaças crescentes.

"Penso que isso é mais uma afirmação do que uma pergunta, e eu concordo. Penso que existe uma grande preocupação de que, devido às crescentes tensões, à desconfiança e às dúvidas sobre a fiabilidade das alianças, os países possam encontrar incentivos para reconsiderar a sua abstenção passada de desenvolver armas nucleares", afirmou o chefe da AIEA e candidato a secretário-geral da ONU.

O diplomata argentino salientou que há muitas nações que, "se quisessem", teriam a tecnologia e a capacidade para desenvolver armas nucleares muito rapidamente.

"Tenho sido muito claro ao afirmar que um mundo com mais países com armas nucleares não seria um mundo mais seguro. Por isso, temos de reafirmar o nosso compromisso com a norma da não proliferação, sem dúvida", insistiu.

Até ao dia 22 de maio decorre em Nova Iorque, na sede da ONU, a 11.ª Conferência de Revisão das Partes do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP).

A Conferência deverá abordar uma série de questões, incluindo a universalidade do Tratado; o desarmamento nuclear, incluindo medidas práticas específicas; a não proliferação nuclear, incluindo a promoção e o fortalecimento das salvaguardas; medidas para promover os usos pacíficos da energia nuclear, incluindo segurança; o desarmamento e a não proliferação regionais, incluindo a implementação da resolução de 1995 sobre o Médio Oriente.

Abordará igualmente maneiras de fortalecer o processo de revisão para melhorar a eficácia, eficiência, transparência, responsabilidade, coordenação e continuidade.

Na segunda-feira, no arranque do evento, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, pediu que sejam levantadas as bases para a "evolução do Tratado".

"Hoje, a ameaça nuclear é agravada por novos perigos provenientes de tecnologias em rápida evolução, como a inteligência artificial e a computação quântica. O Tratado não é uma relíquia de uma era passada, congelada no âmbar. Deve lidar com a relação entre as armas nucleares e as novas tecnologias", defendeu.

Na conferência de imprensa de hoje, Rafael Grossi abordou também a questão do urânio altamente enriquecido do Irão, que poderá estar ainda enterrado nos escombros devido aos ataques norte-americanos e israelitas.

Questionado sobre se esse urânio poderia ser recuperado e reutilizado, ou se, por outro lado, está fora de alcance, o diretor da AIEA frisou que essa questão deve ser abordada, "seja qual for o estado em que [o urânio] se encontre".

"Trata-se de uma grande quantidade de material nuclear altamente enriquecido, próximo do grau de enriquecimento para armas nucleares, que estávamos a inspecionar até junho de 2025 [antes dos ataques de Washington e Telavive]", disse.

"Há procedimentos específicos nos acordos de salvaguarda de segurança que temos com o Irão, que permitem, em casos de circunstâncias extraordinárias, e se houver um problema no acesso ao material, interagir, tentar encontrar formas de o verificar. (...) Mas não há paz, há apenas um cessar-fogo, e provavelmente existe essa dificuldade de acesso", lembrou, reforçando que a situação só poderá ser verificada quando estiverem garantidas as condições de segurança e acesso aos inspetores.

Rafael Grossi recusou renunciar ao cargo na AIEA enquanto concorre à liderança da ONU, contrariando uma resolução da Assembleia-Geral que pedia aos funcionários das Nações Unidas que "considerassem" suspender funções durante a campanha, a fim de evitar conflitos de interesse.

Hoje, o diplomata argentino avaliou que seria "irresponsável" ausentar-se da liderança da AIEA.

"Seria até irresponsável da minha parte deixar o meu emprego e concentrar-me nos esforços da campanha. Estou muito focado no trabalho que estou a fazer. Estou a negociar com a Rússia e estamos a tentar evitar um acidente nuclear. Estamos envolvidos nas negociações com o Irão. Seria realmente uma negligência da minha parte", declarou.

"Não critico ninguém. Sabe, as pessoas fazem o que fazem em função da sua missão e do trabalho que têm", afirmou, após ser confrontado com a posição adotada por Rebeca Grynspan, que suspendeu a sua liderança da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) quando se tornou candidata à sucessão de Guterres.