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Crónicas

Uma viagem pela terceira idade

Este fim de semana, na minha caminhada matinal que passa pela padaria e pelo mercado do meu bairro, encontrei duas senhoras já de idade avançada, à conversa, junto à banca da fruta. Enquanto escolhia o que ia levar não pude deixar de ouvir o que diziam, tal era a animação e a alegria que espelhavam no diálogo. Tinham acabado de se encontrar ali, por acaso, e haviam-se inscrito ambas para uma viagem de terceira idade para um sítio que não deu para descortinar mas imagino que fosse para fora do país. Empolgadas como duas crianças, falavam dos pormenores, das datas, do que tinham que deixar preparado e da aventura que seria o reencontro passados largos anos. Provavelmente já o teriam idealizado e nunca tiveram oportunidade de concretizar ou estiveram chateadas e voltaram a dar-se. Seriam amigas de toda a vida ou apenas se conheceram por aqui? Essa é também a magia das relações e das pessoas, todas têm uma história diferente, uma história (ou várias) para contar e que gosto de imaginar quando olho para elas, na rua ou em qualquer outro lugar.

Voltando à conversa, a meio, uma perguntou com um sorriso de entusiasmo vibrante — sabes quem também vai? — a outra retorquiu, — sei! A Sofia Sousa! — Senti que ficaram as duas felizes pela ida da amiga, talvez porque esteja a passar uma fase difícil ou porque tenham qualquer coisa que as ligue às três. O que sei é que a tal Sofia, gostaria com toda a certeza de saber que tem ali duas amigas que gostam dela e que gostam que as acompanhe. Tenho pena que não lho possa dizer, essas coisas boas das relações merecem ser ditas e contadas. Muitas vezes precisamos das palavras para consubstanciar o que sentimos e para lhe dar corpo e sentido. Pecamos por não as utilizar sempre que devíamos, guardamo-las numa caixinha por receio de exageros ou para nossa própria proteção, a verdade é que através delas também podemos dar um sentido diferente à vida de alguém. Gostei particularmente daquele meu encontro casual, revi na minha mente as viagens da minha avó, o que os meus pais têm feito e ainda por fazer e até o meu próprio futuro. As viagens que ainda não fiz, a ligação aos meus amigos e o que ficou por lhes dizer. O que podemos e devemos fazer para não “morrer” por dentro, a continuação dos nossos sonhos e das nossas concretizações quando a idade avança sem dar tréguas.

É curioso como, nessa fase, a vida ganha uma leveza inesperada. As pequenas coisas, um passeio sem destino, o cheiro de pão quente, o som de uma gargalhada familiar, deixam de ser intervalos e passam a ser o essencial. Talvez porque já não haja a urgência de chegar a lado nenhum. Ou talvez porque, finalmente, percebemos que o lado certo sempre foi ali. Há quem tema esse tempo. Como se envelhecer fosse um falhanço do corpo ou uma traição dos anos. Mas a verdade é outra, envelhecer é um privilégio raro, embora muitas vezes mal contado. Cada ruga traz uma história, cada memória um capítulo que não se repete. E há uma beleza desarmante nessa soma de experiências que nos molda sem pedir licença. Claro que há perdas. Seria ingénuo ignorá-las. Mas também há ganhos que só se revelam a quem chega ali, a capacidade de escolher melhor, de dizer não sem culpa, de valorizar o que realmente importa. Há uma espécie de sabedoria prática, quase invisível, que se instala e nos guia com uma serenidade nova.

A terceira idade não é um ponto final. É, na verdade, um outro ritmo, menos apressado, mais consciente, surpreendentemente livre. Um tempo onde se colhem os frutos, mas também onde ainda se plantam sonhos, mesmo que em vasos mais pequenos. Um tempo cheio de oportunidades para quem não quer deixar a mente sucumbir.

No fundo, talvez seja isto, viver mais devagar não é viver menos. É, finalmente, viver melhor. É aproveitar o que se deixou para trás por falta de tempo. Como diz o título deste espaço semanal, “Um dia de cada vez”.

Frases soltas:

Por ocasião das comemorações do 25 de Abril, deu-me particular gosto ouvir o discurso do presidente da Assembleia da República. José Pedro Aguiar Branco colocou o dedo na ferida, num tempo do politicamente correto, falou sobre a remuneração dos políticos e de que para se atrair os melhores tem que se pagar melhor, falou também do apego dos mesmos aos cargos e da necessidade de abrir a política à sociedade, aos melhores de cada a área sem esquecer as oportunidades para os mais jovens. Gostei.

O empresário e diplomata Paolo Zampolli, enviado especial do governo de Trump disse em entrevista à RAI, emissora italiana, que as brasileiras são “uma raça maldita”, “programadas para a confusão”, isto depois de uma disputa judicial com a sua ex-mulher, a modelo brasileira Amanda Ungaro. Em Portugal há quem se queixe do mesmo…