“Raízes de Liberdade: Entre Abril e Novembro”

Com a comemoração do 25 de Abril de 1974 quase a chegar…

Há datas que não cabem no calendário. Não porque sejam grandes demais, mas porque são fundas demais. Ficam suspensas no ar como poeira luminosa como se o país respirasse através delas. O 25 de Abril de 1974 é uma dessas datas. Não é apenas um dia: é um gesto que atravessa gerações. Um cravo pousado no cano de uma espingarda, sim, mas também um país inteiro a perceber que o medo, quando finalmente se parte, faz um som próprio. Um som que não se esquece. A revolução não foi só militar; foi íntima. Foi o instante em que Portugal descobriu que a liberdade tem corpo, tem cheiro, tem voz e que podia ser dita, cantada, transmitida pela rádio como quem abre uma ferida para deixar entrar luz.

Mas nenhuma libertação profunda acontece sem vertigem. Depois do deslumbramento, vieram meses em que o país parecia andar descalço sobre terreno instável. Havia esperança, mas também havia pressa. Havia vontade de reconstruir, mas não havia consenso sobre o desenho da casa. E, no meio desse fervor, cada rua, cada fábrica, cada quartel era um laboratório improvisado onde se testava o futuro. O país era uma obra aberta, com paredes por erguer e outras por derrubar, e cada martelada ecoava como uma pergunta: “Que país queremos ser?”

É então que surge o 25 de Novembro de 1975, não como um travão, mas como um ponto de equilíbrio. Uma data que não apaga Abril, mas protege-o. Um momento em que o país, ainda febril, percebe que a liberdade precisa de chão para não se perder no ar. Muitas fontes históricas descrevem esse dia como um esforço coletivo para recentrar o processo político, para impedir que a revolução se transformasse numa nova forma de tutela. Se Abril abriu a porta, Novembro foi o gesto de a segurar com firmeza, para que não voltasse a fechar nem fosse arrancada do lugar por ventos extremos.

Hoje, quando olhamos para estas duas datas, não vemos apenas história: vemos raízes. Abril é a semente que rompeu a terra; Novembro é a mão que protegeu o rebento do excesso de sol e de sombra. Entre ambas, ficou a consciência de que a democracia não nasce pronta, constrói-se, corrige-se, aprende-se. É um exercício diário, feito de memória, responsabilidade e presença. Não vive sozinha: precisa de quem a cuide, de quem a questione, de quem a defenda.

Que nunca nos esqueçamos de que todos devemos acreditar num Portugal sem donos. Sem donos da Constituição, sem donos da rua, sem donos da Democracia.

Um país capaz de evoluir, de se desenvolver, de criar condições para que a liberdade e a prosperidade floresçam. Um país onde cada pessoa possa viver sem medo, participar sem barreiras e sentir que a sua voz tem lugar.

E temos de “lutar” todos os dias, com civismo, com responsabilidade, com respeito, para que Portugal seja verdadeiramente a casa de todos aqueles que querem viver em liberdade. Uma liberdade que não se esgota no direito de falar, mas que se cumpre no dever de construir. Uma liberdade que exige vigilância, participação e coragem para defender o que é de todos.

Porque a Democracia não é um objeto decorativo: é um compromisso diário. E só permanece viva quando cada um de nós a cuida, a questiona e a fortalece.

José Augusto de Sousa Martins