A bola
O meu tio Humberto nunca desistiu do rádio a pilhas, mas passou a ver os jogos na televisão, a sofrer de outra maneira
A última vez que o Marítimo subiu o futebol profissional jogava-se por divisões e os adeptos acompanhavam a bola pela telefonia onde, todas as tardes de domingo, havia relatos de vários jogos. E nem sempre era fácil seguir aquelas emissões com os golos de outros desafios a interromper o relato que se estava a ouvir, mas todos os homens da idade do meu pai e do meu tio Humberto tinham um rádio a pilhas para, ao menos, saber os resultados e ficar com uma ideia de como se estava a portar a equipa dentro do campo.
A rádio emitia de todos os campos e estádios e tinha aos microfones homens que falavam depressa sem se engasgar, gritavam golo durante vários segundos e nunca perdiam o fôlego. O meu tio Humberto dividiu essa época entre a telefonia e os Barreiros, onde ia de 15 em 15 dias para ver o seu Marítimo e sair de lá com o coração cheio. Não sei bem o que fazia com isso, o meu tio era um senhor à moda antiga, daqueles que se queixavam pouco, dos que todos os dias vestiam o casaco e iam trabalhar.
A Alfaiataria Marques, na Rua da Carreira, não era um negócio florescente. O meu tio contava com alguns clientes habituais e os ingleses que ainda apreciavam um fato por medida. As encomendas começavam a escassear, mas as portas abriam e ele resistia contra as modas, o pronto a vestir e um mundo que já não era o mesmo. Aquela loja com as letras douradas no vidro da montra, peças de tecido e um manequim com um casaco alinhavado não calhava bem com o espírito dos anos 80, do plástico, dos artistas pop e do quanto mais artificial e industrial melhor.
O moderno era o contrário daquele lugar de chão em madeira, móveis pesados e cortinas brancas, onde nada mudara havia décadas. As pessoas fugiam do que lhes parecia passado, antigo e não escondiam a pressa de varrer tudo o que fosse genuíno e feito à mão. O negócio do meu tio era tudo isso e não me esqueço da solidão, do desalento que ele tentava mascarar com um sorriso quando aparecia lá para usar o telefone ou para lhe pedir boleia para casa, no último carro velho que teve, um Opel Kadett em terceira mão, o mesmo que me levou ao aeroporto quando fui para a faculdade.
Aos dias de semana, o meu tio Humberto era aquele senhor sentado na alfaiataria a coser o forro de um fato, ao sábado vinha trazer às compras do mercado à minha mãe e aos domingos agarrava-se ao rádio a pilhas ou então ia aos Barreiros sofrer pelo seu Marítimo. Devia gritar com o árbitro, reclamar da equipa, fazer o que fazem os adeptos, mas isso não sei. Do que me lembro é do amor que tinha ao futebol, de como gostava do desporto e de como ficou feliz com a subida do Marítimo.
Esse amor durou a vida inteira. O meu tio Humberto nunca desistiu do rádio a pilhas, mas passou a ver os jogos na televisão, a sofrer de outra maneira, sentado na cadeira da sala e a dar toques com os pés numa bola imaginária. E continuou a ir aos Barreiros e a dizer que o mais difícil era quando o Marítimo jogava com o Porto, os seus dois clubes.