Líderes da UE debatem crescimento económico quando se fala em Europa a duas velocidades
Os líderes da União Europeia (UE) vão reunir-se na quinta-feira num retiro para discutir como aumentar a competitividade comunitária, face aos concorrentes Estados Unidos e China, quando se discute uma Europa a duas velocidades na cooperação financeira.
No encontro informal de alto nível que decorre no castelo belga de Alden Biesen, a cerca de uma hora de Bruxelas, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, vai promover debates entre os líderes europeus sobre como reforçar o mercado único, reduzir as dependências económicas e aumentar a competitividade da UE, num novo contexto geoeconómico em constante mudança.
Com início previsto para as 10:30 locais (menos uma hora em Lisboa), esta cimeira europeia visa "testar as águas" e encontrar "orientações concretas" em questões como a remoção das barreiras no mercado interno, a redução dos preços da energia, a promoção da indústria comunitária e a alavancagem de verbas, segundo indicaram fontes europeias na antevisão do encontro.
Hoje, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, defendeu uma UE simplificada e a duas velocidades quanto à cooperação financeira.
Antes, numa carta enviada aos líderes europeus na segunda-feira, Von der Leyen defendeu esta ideia de Europa a duas velocidades relativamente à integração financeira para acelerar a União dos Mercados de Capitais, o que iria permitir que alguns países da UE (os que quisessem) pudessem harmonizar melhor os seus sistemas, facilitar o financiamento às empresas e reduzir a dependência de capital externo.
A UE conta com 27 sistemas financeiros diferentes, cada um com o seu supervisor, e mais de 300 plataformas de negociação, e os Estados Unidos, por exemplo, têm um único sistema financeiro, uma única capital financeira e alguns outros centros financeiros.
Os Tratados da UE preveem mecanismos de cooperação reforçada, através do qual um grupo mínimo de países aprofundar a cooperação em determinadas áreas (como o euro, o Espaço Schengen ou o direito da família) sem obrigar todos a participar.
No outono de 2023, quando era primeiro-ministro português, António Costa defendeu que a UE deveria funcionar como um "grande edifício multifuncional", numa metáfora referente à cooperação flexível entre os Estados-membros.
Uma outra ideia que será discutida neste retiro diz respeito à preferência europeia, dando prioridade a empresas, produtos ou investimentos da UE em setores estratégicos.
A ideia é combater a falta de investimento e de inovação na UE, diversificar o fornecimento energético para obter preços mais baixos e reforçar a resiliência e segurança económicas, principalmente face à China e Estados Unidos.
Em causa estão reformas nacionais, mas também europeias, ao nível da simplificação administrativa (para gerar poupanças de 15 mil milhões de euros por ano), da remoção de barreiras no mercado único (com as barreiras internas a equivaleram a uma tarifa de 45% sobre bens e 110% sobre serviços), da aposta na inovação e da atração do investimento.
Passou um ano e meio desde que, em setembro de 2024, o antigo presidente do Banco Central Europeu Mario Draghi divulgou o seu relatório sobre o futuro da competitividade europeia, no qual revelou ser necessário um investimento adicional anual mínimo de 750 a 800 mil milhões de euros, o correspondente a 4,4-4,7% do PIB comunitário em 2023.
As três grandes transformações sugeridas por Mario Draghi incidiam em acelerar a inovação e encontrar novos motores de crescimento, apostar na descarbonização e em reduzir os elevados preços da energia e ainda em reduzir dependências dadas as tensões geopolíticas.
De acordo com dados agora divulgados, só foram aplicadas 15% das medidas propostas por Mario Draghi.
O também antigo primeiro-ministro italiano Enrico Letta propôs, num outro relatório divulgado em abril de 2024, dívida conjunta com planos de reembolsos claros, empréstimos em condições favoráveis e apoio do Banco Europeu de Investimento para financiar o investimento da UE em segurança e defesa.
Tanto Mario Draghi como Enrico Letta foram convidados para uma troca de impressões com os líderes neste retiro.
Hoje, na véspera do encontro de alto nível, realiza-se na cidade belga de Antuérpia uma Cimeira Europeia da Indústria, com mais de 20 chefes de Governo e de Estados da UE, sem Portugal estar presente, de acordo com fontes comunitárias.
A UE é o maior bloco comercial do mundo em termos combinados de bens e serviços, representando, em 2024, uma fatia de 15,8% do comércio mundial.
É ainda o maior comerciante mundial de serviços e o segundo maior comerciante de bens a nível global, após a China.
O Castelo de Alden Biesen está localizado no município de Bilzen, província de Limburgo, na região de Flandres.