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Sociedade líquida e sociedade do medo

A sociedade líquida e a sociedade do medo são conceitos interligados na obra de Zygmunt Bauman, especialmente desenvolvidos no livro Medo Líquido e na teoria da modernidade líquida.

Segundo aquele sociólogo, «o medo é reconhecidamente o mais sinistro dos demónios que se aninham nas sociedades abertas de nossa época. Mas é a insegurança do presente e a incerteza do futuro que produzem e alimentam o medo mais apavorante e menos tolerável».

1. A perda do “porto seguro” e o fim da estabilidade

Na chamada modernidade sólida, ter casa representava a concretização de um projeto de vida, um símbolo de enraizamento e segurança. Na sociedade líquida, as estruturas fixas desaparecem. O trabalho é precário (terceirizado, temporário ou em plataformas), e o mercado exige que o indivíduo mude de emprego. A habitação deixa de ser um direito de fixação e passa a ser encarada como algo transitório, flexível ou inalcançável.

2. A “financeirização” e a casa como produto descartável

Para Bauman, na sociedade de consumo, a identidade é construída através do consumo e do descarte. No setor habitacional, isso reflete-se na transformação da casa (que deveria ser um bem social básico) num ativo financeiro, num produto de investimento, no Alojamento Local ou num bem altamente especulativo. O mercado imobiliário opera sob a lógica da fluidez, os edifícios e as cidades transformam-se rapidamente para servir o capital, expulsando os moradores locais que perderam poder de compra.

3. O medo líquido e a ansiedade habitacional

No livro Medo Líquido, Bauman descreve como as pessoas vivem sob uma constante sensação de ameaça e vulnerabilidade (medo do desemprego, da exclusão social, da perda de estatuto). O problema da habitação — manifestado na impossibilidade de comprar casa, no aumento abusivo das rendas ou no risco de despejo — é um dos principais geradores desse medo contemporâneo. A incerteza de não saber onde se vai morar amanhã alimenta uma insegurança existencial profunda, transformando a casa, que deveria trazer proteção, numa fonte de ansiedade crónica.

4. A precarização do “estar no mundo”

Vivendo em relações e contratos de trabalho voláteis, os jovens e as populações mais vulneráveis encontram-se num estado de “precariado”. Emerge o “precariado”, termo que Bauman usou para se referir a pessoas cada vez mais escolarizadas, mas com empregos precários e instáveis. A impossibilidade de aceder a uma habitação condigna impede a própria planificação do amanhã (como constituir família ou ter autonomia), cristalizando a sensação de que a vida escorre por entre os dedos.

Utilizando uma imagem de Ítalo Calvino em Cidades Invisíveis, estamos dentro de um inferno e, sair dele e dos seus mecanismos, tornar-se-á cada vez mais difícil.