Fora do armário há um jardim
No passado dia 26 de Setembro, realizou-se o 9.º Madeira Pride, uma manifestação pública, política, artística e comunitária das pessoas queer, pelos direitos e contra a discriminação homofóbica, bifóbica e transfóbica. De facto, caminhamos para 10 anos de visibilidade LGBTQIA+ na Madeira, fora dos armários cheios de naftalina.
Nasci e cresci na Madeira, vivi entre o Funchal e Câmara de Lobos a maior parte da minha adolescência, com uma mãe católica e um pai conservador ex-combatente do Ultramar, de famílias pobres e muito modestas. Esta informação importa: ela define o contexto em que se cresce e foi nele que me descobri gay. A violência do meu pai foi tanta que tive que sair de casa e abrigar-me na de um familiar. Foi aqui que o meu “eu” e o meu corpo entendemos que ser gay não era comportamento de macho, era algo inferior, por isso a porrada era merecida e deveria sentir culpa e vergonha por algo que não controlo. Que me diz respeito, sim, que escolho ser porque essa é a minha verdade, sim, mas que não é uma verdade provocada, é só uma verdade da minha natureza.
Cerca de um ou dois anos depois de ter revelado que era gay, já com 18 anos de idade, recebi o diagnóstico de VIH. Por cima da violência sofrida, uma doença que ecoava o velho estigma da “doença gay” dos anos 80. A minha saúde ficou estável em 2-3 meses, mas a saúde mental sofreu um abalo como nunca. Comecei a desenvolver depressão e ansiedade e, pela violência sofrida e pelo diagnóstico de VIH, preciso investir em psicoterapia e psiquiatria para que também eu possa sentir que a vida é bonita.
Algumas pessoas dirão que o VIH é o castigo de Deus, tal como o meu pai pensou. Eu digo que é uma consequência, um dano colateral da violência machista e homofóbica que há na nossa sociedade. A minha questão fundamental é: porquê? Porque reagem as pessoas assim? O que as move? Onde está a responsabilidade do Estado em assegurar que toda a pessoa que nasce neste território tenha uma vida digna?
Eu não me queixo de ser gay, a comunidade também não, também não me queixo de ter VIH, é apenas cruel ter sido penalizado na minha vida por isso. As minhas recordações de infância e adolescência estão em grande parte apagadas da minha memória, sinto que perdi mais de 20 anos da minha vida porque não vivi: sobrevivi, vendo a luz ao fundo do túnel. Foram muitos anos a esconder quem sou para tentar encaixar numa sociedade que me rejeita. E, 15 anos depois da violência familiar, sinto a violência do Estado Português que persegue a comunidade LGBTQIA+ e quer reverter o nosso direito a viver em dignidade.
Apesar de todo o peso da minha história, que sinto no meu corpo e na minha consciência todos os dias, eu não só sobrevivi como também floresci. Não na ilha que é um jardim, mas fora dela, onde as flores podem brotar sem pedir licença. Saí das caixas que não são para mim e afirmei-me como pessoa não binária. Pinto as unhas, uso roupas coloridas e também posso vestir uma saia, mas mais do que aparento ser, sinto-me por inteiro. Não sou mais quem disseram que eu tinha que ser: um homem discreto.
Agora, quando me olham, analisam e investigam na rua, sei que é porque me veem como um ser diferente, esquisito e estranho - o que a comunidade traduz para “queer”. Acima de tudo, quando me olham, sinto-me queer, sei que estou a ser cada vez mais eu e essas são as asas que a violência, que muitos defendem, me retirou. Sou diferente, mas pretendo ser igual em direitos e dignidade.
Eu comecei a fazer ativismo na Madeira aos 22 anos porque foi onde eu quis deixar a minha revolta. A rede ex aequo - associação de jovens LGBTI e apoiantes teve um importante papel em capacitar-me, foi um investimento que colaborou para descentralizar o movimento e iniciá-lo também na Madeira.
Eu estive desde o primeiro dia no Madeira Pride, fui uma das pessoas coorganizadoras e impulsionadoras para que esta manifestação anual pudesse acontecer, um projeto que pôde ser possível pela linha de financiamento associativa da Câmara Municipal do Funchal; na altura, uma medida da vereação do Partido Socialista.
Mais tarde, com grande colaboração da comunicação social regional, a nossa voz passou a ser ouvida e o Governo Regional decidiu apoiar as associações que se estabeleceram na Madeira, permitindo a abertura do Centro Comunitário LGBTI+ da Região Autónoma da Madeira, agora gerido pela Opus Gay Madeira.
Estas conquistas foram possíveis porque houve organizações, como a UMAR Madeira e a Associação Abraço, que se uniram ao movimento e, acima de tudo, porque houve pessoas comprometidas com a comunidade.
Refugiei-me em Lisboa, mas ver o movimento vivo e transformado torna a ideia dos anos perdidos para o trauma emocional mais suportável, e é um marco de resistência queer na história do movimento na Madeira e em Portugal. A violência não teve a última palavra, a minha revolta foi ouvida e transformou-se numa resposta coletiva de comunidade, resistência e apoio comunitário.
Aos 16 anos fui expulso de casa, escondi-me e aprendi a caber para sobreviver. Hoje, a violência não desapareceu, mas a realidade de jovens queer na Madeira pode ser diferente: a rua pode ser ocupada e nela pode ser encontrado o espaço de revolta e de libertação para se ser de forma autêntica e genuína, sem as amarras da violência homofóbica, bifóbica e transfóbica.
Mas nem tudo é um jardim. Os direitos LGBTQIA+ estão sob ataque a nível nacional e internacional. No Reino Unido, J. K. Rowling financia narrativas anti-trans através dos lucros de Harry Potter que resultaram na reversão de direitos das pessoas trans. Nos Estados Unidos, foram revogadas ordens executivas que protegem a comunidade contra a discriminação com base na orientação sexual e a identidade de género. Na Hungria, o Pride foi proibido e foi restringida a transição de género a quem mais precisa dela.
Nesta semana, em Portugal, a Assembleia da República está a realizar audições públicas sobre projetos de lei relativos à autodeterminação de género e cuidados de saúde para jovens trans, com grupos católicos e páginas de Instagram envolvidas na discussão, alguns sem qualquer base e estrutura legal, para influenciar e concretizar a reversão dos direitos conquistados. O mundo que queremos não é este.
Agora, é fundamental resistir e reduzir os danos das políticas da extrema-direita. A Madeira não está isenta de retrocessos, ela está integrada num Estado, na União Europeia e nas transformações do Mundo. Organizamo-nos, somos visíveis, criamos comunidade, ocupamos a rua, construímos instituições e protegemos quem precisa. A manifestação e a celebração queer são fundamentais neste processo de resistência, num ato que é profundamente identitário, social, cultural e político.
Em quase 10 anos, a comunidade queer madeirense resiste e resistirá até que a homofobia, bifobia e transfobia sejam erradicadas da sociedade madeirense. Porque o mundo que queremos começa aqui: na rua e também dentro dos armários. Começa no Madeira Pride para que mais nenhuma pessoa queer precise de fugir da Madeira para descobrir que a sua vida merece ser vivida em pleno.
Manu Jesus