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Fact Check Madeira

Uma polémica com Ronaldo torna-se sempre notícia em todo o mundo?

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foto José Sena Goulão / Lusa

Cristiano Ronaldo não jogou contra a Dinamarca. Não estava no banco, nem sequer se encontrava com a Selecção Nacional, depois de ter abandonado o estágio na sequência do desentendimento com Jorge Jesus.

Portugal ganhou por 4-2. João Cancelo, Gonçalo Ramos, Vitinha e João Félix marcaram os golos portugueses. Bruno Fernandes fez duas assistências. Ainda assim, para a BBC, a pergunta deixada pelo encontro era outra: seria este o fim de Ronaldo na Selecção e Portugal sentiria a sua falta?

A agência France-Presse também não se limitou ao resultado. No título da notícia distribuída aos seus clientes, destacou que Portugal tinha vencido a Dinamarca “na ausência de Ronaldo”. Três dias depois, quando Portugal bateu a Noruega e garantiu a qualificação para os quartos-de-final da Liga das Nações, voltou a fazer o mesmo: “Portugal sem Ronaldo” vencia a Noruega.

Foram casos isolados ou a dimensão mediática de Cristiano Ronaldo fez com que uma querela interna da Selecção Portuguesa passasse fronteiras e continuasse a ser notícia mesmo quando o jogador já não estava presente?

Para verificar a dimensão que atingiu o caso, pesquisámos notícias publicadas entre o final de Setembro e 7 de Outubro em órgãos de comunicação de vários países. A pesquisa foi realizada com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial, usadas para localizar e cruzar referências em diferentes línguas e mercados. As ocorrências consideradas foram depois verificadas pelo DIÁRIO, nomeadamente quanto à publicação, data, título e origem da notícia.

Foram excluídos agregadores e páginas sem origem editorial identificável. Também distinguimos as notícias produzidas pelos próprios órgãos de comunicação das que resultaram da distribuição das grandes agências internacionais. Esta separação é importante. Uma notícia da Reuters publicada por um jornal de Singapura não significa que esse jornal enviou um jornalista para acompanhar o caso, mas demonstra que uma agência internacional considerou o assunto com interesse suficiente para o distribuir através da sua rede.

O levantamento não pretendeu ser um censo de tudo o que foi publicado no mundo. Seria impossível garantir que encontrámos todas as notícias, em todas as línguas e países. O que procurámos foi perceber até onde chegou o caso e, sobretudo, se a projecção encontrada permite falar de dimensão mundial.

A resposta começa pela questão geográfica.

Encontrámos notícias sobre a polémica em órgãos de comunicação de mais de 20 países, distribuídos pela Europa, América, África, Ásia e Oceânia. Reino Unido, Espanha, França, Itália, Estados Unidos, Brasil, Argentina, Chile, México, Índia, Paquistão, Bangladesh, Japão, Singapura, Indonésia, Arábia Saudita, Nigéria, Quénia, África do Sul e Austrália estão entre os mercados onde foi possível localizar cobertura.

A dimensão não resultou apenas da distribuição das agências. Houve produção própria de órgãos de comunicação internacionais.

No Reino Unido, o Guardian acompanhou o caso durante vários dias. A 1 de Outubro, publicou uma análise sobre a saída de Ronaldo e a divisão provocada em Portugal. Voltou ao assunto com uma análise sobre o futuro do jogador na Selecção e, já a 7 de Outubro, dedicou uma nova peça aos oito pontos que Ronaldo afirma terem sido previamente acordados com Jorge Jesus para explicar publicamente o que tinha acontecido.

No Brasil, o ge (Globo) acompanhou a história praticamente episódio a episódio. Houve notícias sobre o desentendimento, as declarações de Jorge Jesus, as tentativas da Federação Portuguesa de Futebol para aproximar treinador e jogador, a possibilidade de uma reunião entre ambos, as condições de um eventual regresso e, finalmente, o comunicado em que Ronaldo apresentou a sua versão.

A Índia é outro exemplo que ajuda a perceber a dimensão alcançada. Indian Express, Times of India e outros órgãos acompanharam o conflito em diferentes momentos, não se limitando à reprodução de uma única notícia internacional.

A isto juntou-se a circulação pelas grandes agências. Reuters, Associated Press, AFP e EFE colocaram o caso nas suas redes internacionais. A Reuters noticiou a saída de Ronaldo do estágio a 30 de Setembro e voltou ao assunto a 6 de Outubro, quando o jogador acusou Jorge Jesus de não ter cumprido aquilo que tinha sido combinado entre ambos.

Ou seja, não houve apenas uma notícia que se espalhou pelo mundo num determinado dia. Houve várias.

Primeiro, Ronaldo ficou no banco frente à Noruega e não chegou a entrar. Depois surgiu o desentendimento com Jorge Jesus e o abandono do estágio. Seguiram-se as reacções do seleccionador, da Federação e dos jogadores. Vieram os dois jogos seguintes de Portugal, já sem Ronaldo. Depois discutiu-se a possibilidade de reconciliação. Finalmente, a 6 de Outubro (ontem), Ronaldo apresentou a sua versão e provocou uma nova vaga de notícias.

No dia seguinte (hoje) ainda surgiam novos trabalhos internacionais a partir do comunicado.

A duração da cobertura é, por isso, outro indicador. O caso não desapareceu depois de um ciclo noticioso de algumas horas.

Mas há um aspecto que permite avaliar melhor a dimensão mediática de Cristiano Ronaldo do que simplesmente contar países ou notícias. É o que aconteceu quando ele deixou de estar presente na Selecção.

Para testar esse efeito fizemos uma segunda pesquisa, desta vez centrada exclusivamente nos jogos disputados por Portugal depois da saída de Ronaldo. Procurámos os encontros através das equipas, resultados, datas e competição, sem utilizar o nome do jogador como critério de pesquisa.

O objectivo foi evitar um resultado viciado. Procurar “Portugal-Dinamarca Ronaldo” e concluir depois que as notícias encontradas falavam maioritariamente de Ronaldo teria pouco valor.

O primeiro teste foi o Dinamarca-Portugal, disputado a 1 de Outubro.

A BBC titulou a reportagem perguntando se aquele poderia ser o fim de Ronaldo e se Portugal sentiria a sua falta. A abertura dizia que os adeptos tinham acabado de ter uma primeira amostra daquilo que poderia ser a era pós-Cristiano Ronaldo.

A AFP foi ainda mais directa: “Portugal vence Dinamarca na ausência de Ronaldo”. Na abertura, a agência explicou que Portugal tinha colocado de lado a controvérsia provocada pela saída do jogador para ganhar por 4-2 e que a preparação para o encontro tinha sido dominada pelo abandono inesperado do estágio.

A Al Jazeera manteve no título o resultado – Dinamarca 2, Portugal 4 –, mas apresentou a vitória como conseguida depois de Portugal ultrapassar a ausência de Ronaldo.

O Guardian também enquadrou o resultado através da nova realidade da Selecção, referindo que Portugal tinha prosperado sem Cristiano Ronaldo.

Em Itália, a Sky Sport escolheu um título convencional sobre os golos e os melhores momentos. Mas a primeira frase da notícia começava por dizer que Portugal tinha colocado de lado o “caso Ronaldo”.

Ou seja, nem sempre o nome do jogador chegou ao título. Muitas vezes entrou imediatamente na explicação do resultado.

E havia outras histórias para contar.

Portugal tinha marcado quatro golos. Gonçalo Ramos substituíra Ronaldo no ataque e marcara. Bruno Fernandes fizera duas assistências. A Dinamarca conseguira empatar duas vezes. João Félix tinha fechado o resultado. Alguns órgãos escolheram precisamente esses ângulos.

A UEFA centrou a sua informação no resultado e na situação do grupo. Outros relatos destacaram os marcadores ou a terceira vitória consecutiva da Selecção orientada por Jorge Jesus. Isso demonstra que não era obrigatório falar de Cristiano Ronaldo para noticiar o jogo. Era possível contar a vitória sem ele.

Uma parte relevante da imprensa internacional decidiu não o fazer.

Três dias depois houve nova oportunidade para testar o fenómeno.

Portugal recebeu a Noruega, ganhou por 2-1 e garantiu a presença nos quartos-de-final da Liga das Nações. Gonçalo Ramos marcou o golo da vitória. Erling Haaland saiu lesionado. Francisco Conceição foi expulso.

Mais uma vez, havia vários ângulos jornalísticos possíveis.

A AFP voltou a escolher Ronaldo: “Portugal sem Ronaldo vence Noruega e chega aos quartos-de-final”.

A Al Jazeera também introduziu a ausência do português no enquadramento do encontro. A Reuters não colocou Ronaldo no título, mas inseriu a polémica na contextualização da vitória. O Guardian, numa das suas coberturas da jornada, resumiu o acontecimento como Portugal a ganhar “sem Ronaldo”.

Outros seguiram caminho diferente. Houve notícias centradas em Gonçalo Ramos, na qualificação portuguesa ou na lesão de Haaland.

A diferença entre os dois grupos é relevante. Mostra que Ronaldo não aparecia porque fosse indispensável para explicar aquilo que tinha acontecido dentro do campo. Não jogara, a Selecção vencera e existiam protagonistas desportivos suficientes para construir a notícia sem o antigo titular. Mesmo assim, Ronaldo continuava a entrar nos títulos e nos primeiros parágrafos.

Na amostra exploratória que construímos a partir dos dois jogos, sem utilizar Ronaldo como termo obrigatório da pesquisa, 14 de 22 peças analisadas colocavam o jogador no título ou logo na abertura e enquadramento principal da notícia. São cerca de 64%.

Se forem incluídos os textos em que Ronaldo não surge no início, mas recebe depois relevância editorial, são 16 em 22.

Estes valores não podem ser extrapolados para toda a imprensa internacional. Os motores de pesquisa têm os seus próprios critérios de indexação e uma amostra obtida desta forma não é estatisticamente representativa de tudo o que foi publicado no mundo. Por isso, não é correcto concluir que 64% da imprensa mundial enquadrou os jogos através de Ronaldo.

No entanto, é possível concluir outra coisa: mesmo procurando os jogos sem incluir o nome de Cristiano Ronaldo, a maioria das peças da amostra encontrada introduziu o jogador no título ou logo no enquadramento inicial.

Há ainda uma diferença entre os dois encontros.

No jogo com a Dinamarca, imediatamente posterior à saída do estágio, a presença de Ronaldo na cobertura é particularmente forte. Contra a Noruega, três dias depois, começa a perder peso. A qualificação, Gonçalo Ramos e Haaland conquistam maior espaço.

É o comportamento normal de um assunto que perde novidade com a passagem dos dias. Meso assim, Ronaldo não desaparece.

Três dias depois de ter deixado a concentração, a AFP continuava a colocar a ausência do jogador no título de uma notícia sobre a qualificação de Portugal para os quartos-de-final.

Talvez um dos exemplos que melhor sintetizam o fenómeno tenha surgido muito longe de Portugal. No Bangladesh, o bdnews24 dedicou uma reportagem à primeira noite da Selecção depois da saída do capitão. Ronaldo estava a centenas de quilómetros, mas continuava presente. Estava nos assobios dirigidos a Jorge Jesus, no número 7 que passou para Rafael Leão, na celebração de Rasmus Højlund e nas perguntas feitas aos portugueses.

Portugal tinha ganhado por 4-2. A história continuava a ser Ronaldo.

É precisamente este efeito que permite ir além da simples constatação de que Cristiano Ronaldo é uma das figuras mais conhecidas do futebol mundial.

A polémica ultrapassou o espaço mediático português, chegou a órgãos de comunicação de mais de 20 países, entrou nos circuitos das principais agências internacionais e originou produção jornalística própria em diferentes continentes. Manteve-se durante vários dias e gerou sucessivas vagas de notícias.

Mais revelador ainda, continuou a influenciar a forma como foram noticiados os resultados da Selecção quando Ronaldo já não estava presente.

Nem toda a imprensa internacional o fez. Houve órgãos que se limitaram ao resultado, à qualificação ou aos protagonistas dentro do campo. Essa diferença impede generalizações, como a de que toda a cobertura foi dominada por Ronaldo, e demonstra que havia alternativa.

Apesar dela, uma parte substancial dos órgãos analisados escolheu continuar a contar a história da Selecção através de Cristiano Ronaldo.

Pelo exposto, a afirmação de que a polémica entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus teve dimensão mundial encontra sustentação na dispersão geográfica, na circulação pelas principais agências internacionais, na duração e repetição da cobertura e no peso que a ausência do jogador continuou a ter nas notícias dos jogos seguintes. Por isso, avaliamos a afirmação como verdadeira.

“A polémica entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus teve dimensão mundial” – Afirmação resultante da cobertura mediática do caso