Ataques do Hamas no centro do debate eleitoral em Israel
O 07 de Outubro está no centro da campanha das legislativas em Israel, após revelações sobre o alegado conhecimento prévio do primeiro-ministro dos ataques do Hamas, com o debate eleitoral a mostrar uma oposição dividida sobre política de segurança.
A menos de um mês das eleições de 27 de outubro, as primeiras desde o início há três anos da guerra na Faixa de Gaza e também uma das mais incertas de sempre, Benjamin Netanyahu tem negado reiteradamente os relatos de que estava a par da iminência dos ataques dos islamitas palestinianos.
Ao mesmo tempo, Netanyahu comentou, em 28 de setembro, que "não é coincidência que estas mentiras estejam a ser espalhadas agora", por "rivais políticos e atores estrangeiros hostis", que visam derrubar o Governo, e levar a oposição ao poder, mais os seus alegados planos de retirada militar da Faixa de Gaza, Líbano, Síria e Cisjordânia, bem como aceitar o Estado da Palestina.
"Essa é a questão eleitoral: ou a direita, ou a Palestina", declarou o líder do executivo, a propósito das próximas legislativas, cujas sondagens apontam para resultados muito apertados, sem que nenhum dos blocos favoráveis ao Governo ou à oposição consiga o controlo do parlamento.
Na base deste pronunciamento estão as revelações, ao longo do último mês e meio, sobre avisos do Presidente dos Emirados Árabes Unidos (EAU) e do chefe dos serviços de informações do Egito ao líder israelita dos planos de ataques sem precedentes do Hamas contra Israel, que se confirmaram em 07 de outubro de 2023, com o balanço de 1.200 mortos, a que se adicionaram 251 reféns levados para o enclave palestiniano.
Em comunicado, o gabinete do chefe do Governo declarou que Netanyahu "não se encontrou nem falou com Abbas Kamel, que na altura chefiava o Serviço Geral de Informações do Egito".
Do mesmo modo, afirmou que, nos meses que antecederam os ataques do Hamas, "nenhum oficial dos serviços de informações israelitas transmitiu um alerta egípcio ao primeiro-ministro", enquanto anunciava uma torrente de queixas por difamação e "calúnias de sangue" contra os órgãos e jornalistas israelitas que veicularam os alegados alertas dos EAU e Egito.
Netanyahu tem acusado reiteradamente os serviços de segurança pela incapacidade de antecipar e enfrentar os ataques do Hamas e, recentemente, alegou que, se tivesse sido acordado mais cedo na manhã do 07 de Outubro, poderia ter ordenado ações rápidas e eficientes, apontando o caso concreto do antigo chefe de segurança interna (Shin Bet).
"[Ronen Bar] Decidiu não telefonar nem informar o primeiro-ministro, não alertar as unidades de vigilância nem as forças do exército no terreno, não evacuar o Festival Nova e enviar apenas uma pequena equipa tática", segundo um comunicado do gabinete governamental sobre aquela manhã.
Em resposta, Ronen Bar anunciou a intenção de processar o primeiro-ministro.
Enquanto os líderes dos principais partidos de oposição se reuniam para acordar, entre outros temas eleitorais, a exigência de uma comissão de investigação independente ao 07 de Outubro, até agora rejeitada pelo chefe do executivo, Netanyahu fez uma visita não anunciada aos EAU.
De acordo com uma fonte citada pela agência Associated Press (AP), que foi informada do conteúdo destes contactos secretos, o encontro serviu para Netanyahu pedir ao Presidente dos EAU que desmentisse o seu aviso sobre os ataques do Hamas.
O gabinete do chefe do Governo negou mais uma vez esta informação e só posteriormente confirmou a viagem aos EAU, referindo apenas que "teve como foco exclusivo o reforço das relações entre os dois países e a resolução dos desafios regionais".
Em simultâneo, ordenou ao Shin Bet que apresentasse uma ação judicial contra o Canal 12 por "grave violação da censura", depois de a emissora israelita ter noticiado o encontro do primeiro-ministro com o Presidente Mohammed bin Zayed.
A curta distância do terceiro aniversário do 07 de Outubro e um ano passado sobre um frágil cessar-fogo com o Hamas, o líder israelita tem recusado repetidamente os termos do roteiro do Conselho da Paz para a Faixa de Gaza, avisando que a retirada das tropas de Israel só acontecerá depois do desarmamento "genuíno" das milícias palestinianas.
Em simultâneo, tem afirmado que as frentes de conflito abertas desde o começo da guerra no enclave palestiniano, donde se destaca o vizinho Líbano, vão prosseguir até à eliminação das ameaças a Israel e colocou-se de parte no diálogo entre Estados Unidos e Irão, após a ofensiva israelo-americana lançada em 28 de fevereiro deste ano contra a República Islâmica.
No passado dia 29 de setembro, Netanyahu disse estar em posse de indícios de que "inimigos" de Israel tentarão atacar o país antes das eleições.
"Envio-vos uma mensagem: não se metam connosco, nem agora nem nunca. Podemos atingir-vos em qualquer lugar, a qualquer momento", declarou numa mensagem por vídeo, que levantou pedidos de esclarecimentos imediatos do seu principal adversário eleitoral, o ex-chefe das forças armadas Gadi Eisenkot, para distinguir informações genuínas de manipulação política.
O atual líder da oposição, Yair Lapid, exigiu, por seu lado, encontrar-se com o primeiro-ministro sobre as ameaças e, depois da reunião, afastou qualquer motivo para "alarmar a população".
No entanto, o dia seguinte trouxe um grave incidente aéreo, quando o copiloto de um avião da FlyDubai, com destino a Telavive, e 180 passageiros israelitas a bordo, atacou o comandante com um machado, supostamente com a intenção de derrubar o aparelho.
Os relatos descrevem que só a resistência do comandante e a ação de vários passageiros impediram os planos do copiloto, um cidadão de Omã com alegados registos de radicalismo islâmico, e permitiram uma aterragem de emergência na Arábia Saudita, depois de o avião ter chegado a cair cinco mil metros em dois minutos durante a luta no 'cockpit', com todos os ocupantes a salvo.
O caso foi tratado como um ato terrorista pelas autoridades dos EAU e de Israel, e a oposição está trazer o assunto para a agenda interna, ao apontar graves falhas de segurança, exigindo a demissão do ministro dos Transportes, Miri Regev.
Uma sondagem divulgada há um mês pelo Instituto da Democracia de Israel revelou que os assuntos de segurança e relações externas ocupam as principais preocupações dos eleitores e os acontecimentos do 07 de Outubro terão um papel central na escolha do voto para mais de dois terços dos inquiridos.
Mas também o elevado custo de vida e aumentos de 9,5% dos produtos alimentares nos últimos dois anos entram nas inquietações essenciais dos israelitas, que têm sido usadas pela oposição para atacar a política de segurança de Netanyahu e dos seus aliados de extrema-direita, em prejuízo de medidas económicas e sociais.
Gadi Eisenkot, que lidera o partido de direita Yashar e as sondagens, disse recentemente que qualquer pessoa que ainda acredite na solução de dois Estados (Israel e Palestina) após os ataques do Hamas está "iludida".
O ex-general, que perdeu um filho em combate na Faixa de Gaza, opõe-se no entanto a construção de colonatos no enclave palestiniano e é crítico do megaprojeto E1 e a sua ameaça à integridade territorial da Cisjordânia, que suscitou igualmente condenação de vários países ocidentais.
Já o número um do Juntos, o antigo primeiro-ministro Naftali Bennett, que segue em terceiro nas sondagens, concorda com a estratégia de segurança israelita, embora acuse Netanyahu de "ganhos zero" no palco diplomático.
É também um firme opositor da criação do Estado da Palestina, ao contrário do que defendeu no passado o seu parceiro de coligação, o também ex-chefe do governo Yair Lapid.
O ex-ministro da Defesa Avigdor Lieberman, líder do partido Israel é a Nossa Casa, admitiu uma saída alternativa à ocupação da Cisjordânia, ao propor uma gestão da Jordânia de partes do território, ao passo que na Faixa de Gaza o objetivo deve continuar a ser a eliminação do Hamas e entregar depois o território a uma administração internacional.
Dentro do bloco de oposição, apenas a esquerda personificada por Yair Golan, à frente da coligação Democratas, acredita que a solução de dois Estados permitirá a viabilidade e segurança de Israel.
Os partidos árabes posicionam-se no mesmo sentido e podem servir de desbloqueador pós-eleitoral caso o partido Likud, de Netanyahu, e seus aliados ultranacionalistas e ultraortodoxos não consigam maioria para controlar os 120 lugares do Knesset (parlamento).