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Fact Check Madeira

Tem Albuquerque prometido sempre colaborar com a Justiça?

Miguel Albuquerque falou sobre as buscas da PJ ao SESARAM, numa inauguração em Câmara de Lobos 
Miguel Albuquerque falou sobre as buscas da PJ ao SESARAM, numa inauguração em Câmara de Lobos , foto Hélder Santos/ASPRESS

A Polícia Judiciária voltou, esta terça-feira, 20 de Outubro, a realizar diligências num serviço público da Madeira. Desta vez, no SESARAM, concretamente no Serviço de Transporte de Doentes Não Urgentes e na Unidade de Vencimentos. O presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, reagiu garantindo que o seu Executivo colabora com as autoridades e faculta todos os elementos solicitados.

“Não temos nada a esconder, portanto, tudo a andar”, afirmou o governante, que não adiantou pormenores sobre a investigação. Ao longo dos últimos anos, perante buscas da PJ a departamentos governamentais e empresas públicas, Albuquerque tem reagido sistematicamente. Mas será que esta tem sido sempre a sua posição? Ou existem situações em que, confrontado com investigações a organismos sob a sua responsabilidade política, adoptou um discurso diferente, colocando obstáculos à actuação das autoridades?

Para verificar a veracidade da afirmação, recorremos ao arquivo do DIÁRIO e a notícias publicadas noutros órgãos de comunicação social, desde que Miguel Albuquerque assumiu a presidência do Governo Regional, em Abril de 2015. A pesquisa incidiu sobre investigações judiciais que envolveram o Executivo, os seus departamentos e empresas públicas, incluindo processos em que o próprio governante foi visado.

Neste trabalho, fizemos uma diferenciação. Uma coisa é prometer colaboração com as autoridades judiciais, outra é saber se essa colaboração se concretizou em todos os casos. A nossa análise centra-se nas declarações públicas de Miguel Albuquerque, procurando perceber se manteve o mesmo discurso ou se existem posições que contrariem as garantias de disponibilidade.

Uma das situações mais antigas identificadas remonta a Março de 2021, quando a Polícia Judiciária realizou buscas à Presidência, Vice-Presidência e outros organismos do Governo Regional. Em causa estava uma investigação relacionada com a concessão da Zona Franca da Madeira e a eventual ligação à venda de imóveis da Quinta do Arco, anteriormente pertencentes a Miguel Albuquerque.

Na ocasião, o presidente do Governo declarou estar de consciência tranquila, negou qualquer ilegalidade e garantiu disponibilidade para fornecer os elementos necessários ao esclarecimento dos factos. Também atribuiu motivações políticas à denúncia que esteve na origem da investigação.

Pouco menos de dois meses depois, a 13 de Maio, a PJ regressou a serviços governamentais, desta vez no âmbito de uma investigação ao concurso público internacional para a ligação marítima entre a Madeira e Portimão.

“Nós estamos disponíveis, sempre tivemos, para colaborar com qualquer investigação”, afirmou Albuquerque. O governante voltou a garantir que não havia nada a esconder e defendeu a transparência do procedimento. Ao mesmo tempo, criticou a utilização de denúncias anónimas para fins políticos, embora reconhecendo que as autoridades judiciais tinham de investigar os factos denunciados.

O episódio seguinte foi em Janeiro de 2023. Na sequência das declarações do antigo secretário regional Sérgio Marques, que denunciou alegados favorecimentos a grupos económicos e pressões sobre o Governo, o PS requereu uma comissão parlamentar de inquérito.

Mesmo não sendo uma investigação do sistema de Justiça, Albuquerque respondeu que não tinha nada a esconder e que cumpriria o que fosse determinado pela Assembleia Legislativa. “Respondo perante o Parlamento, portanto não temos nada a esconder”, afirmou.

Neste caso, como referido, não se tratava de uma investigação judicial, mas de fiscalização parlamentar. Ainda assim, a declaração é relevante para perceber a posição assumida perante o escrutínio da actividade governativa.

O episódio mais marcante aconteceria exactamente um ano depois, a 24 de Janeiro de 2024. Uma operação da Polícia Judiciária levou à realização de buscas na Madeira e no continente, no âmbito de investigações relacionadas com suspeitas de corrupção e outros crimes. Entre os visados estavam Miguel Albuquerque, o então presidente da Câmara do Funchal, Pedro Calado, e empresários da construção civil.

Albuquerque foi constituído arguido, mas, antes disso, compareceu perante os jornalistas para garantir que o Governo colaboraria com a Justiça. Negou a existência de corrupção, afirmou estar de consciência tranquila e defendeu a necessidade de esclarecer a verdade.

Há um pormenor particularmente significativo nessa intervenção. O presidente do Governo elogiou expressamente os inspectores da PJ e os procuradores envolvidos nas diligências, classificando a sua actuação como “correcta e cordial”. Defendeu ainda que era necessário respeitar a investigação em curso.

Nos meses seguintes, Albuquerque criticou repetidamente as denúncias anónimas e aquilo que considerava ser a utilização da Justiça para ajustes de contas políticos. Fê-lo não só relativamente ao seu governo, mas também a terceiros, como, por exemplo, em Abril de 2024, a propósito de buscas na Câmara do Porto Moniz, presidida pelo socialista Emanuel Câmara.

A crítica, neste caso, não se dirigia a uma investigação ao Governo Regional. Ainda assim, ajuda a perceber que a contestação das denúncias não se limitou aos processos que envolviam o próprio Albuquerque ou responsáveis do PSD.

Já em Maio de 2024, perante novas diligências da Polícia Judiciária na Madeira, o governante voltou à fórmula habitual: “Estamos sempre disponíveis para fornecer elementos para a investigação, até porque não temos nada a esconder”.

Em Setembro do mesmo ano, quando a PJ realizou buscas em secretarias regionais no âmbito da operação Ab Initio, Albuquerque reiterou a disponibilidade para colaborar. “A posição do governo é sempre a mesma, sempre que há processos de averiguações nós disponibilizamos toda a colaboração”, afirmou.

Igual posição voltou a ser expressa a 12 de Novembro de 2025, na sequência de diligências da PJ na Empresa de Electricidade da Madeira. Como deu conta e edição do DIÁRIO do dia seguinte, Albuquerque assegurou que o Governo estava “totalmente disponível” para colaborar com as autoridades. “Não faço ideia do que se trata concretamente, mas reafirmo a total disponibilidade do Governo para cooperar com a Justiça.”

Chegamos, assim, às buscas desta semana ao SESARAM. A resposta do presidente do Governo foi semelhante às anteriores. Garantiu que seriam facultados todos os elementos solicitados pela PJ e pelo Ministério Público e voltou a assegurar que nada havia a esconder.

A pesquisa permite identificar uma continuidade no discurso de Miguel Albuquerque. Em diferentes investigações, algumas envolvendo directamente o próprio e outras incidindo sobre organismos sob a sua responsabilidade política, o governante prometeu colaboração e disponibilidade para prestar esclarecimentos.

Também se verifica que essas garantias foram, por vezes, acompanhadas de críticas às denúncias anónimas e à sua eventual utilização política. Contudo, criticar as motivações de uma denúncia não significa necessariamente contestar a legitimidade da investigação judicial, muito menos impedir a sua realização.

Nos episódios aqui analisados, não encontrámos declarações de Albuquerque que traduzam uma recusa expressa de colaboração com a Justiça ou a não facilitação da mesma. Isto não permite garantir que todos os pedidos das autoridades tenham sido satisfeitos, nem excluir a existência de dificuldades que não tenham sido tornadas públicas.

A verificação incide exclusivamente sobre o discurso do presidente do Governo e não sobre o comportamento efectivo dos serviços durante as investigações.

Assim, face às declarações documentadas ao longo dos últimos anos, avaliamos como verdadeira a afirmação de que Miguel Albuquerque tem prometido colaborar com a Justiça nas investigações ao Governo Regional e aos organismos sob a sua responsabilidade. As críticas políticas que também formulou não anulam, por si só, essas promessas.