Centímetro no Marítimo–FC Porto já aconteceu noutros jogos?
A decisão do VAR nos Barreiros reacende o debate sobre os fora-de-jogo milimétricos. Há exemplos em competições profissionais portuguesas e internacionais que ajudam a enquadrar este tipo de lance.
Um centímetro separou o golo da anulação no encontro entre o Marítimo e o FC Porto, disputado nos Barreiros. Aos 84 minutos, Oskar Pietuszewski marcou o tento que permitiu aos portistas vencer por 2-1, mas a finalização foi inicialmente invalidada pelo árbitro assistente. A intervenção do videoárbitro (VAR), através das linhas virtuais de fora-de-jogo, levou à reversão da decisão: o avançado polaco estava em posição legal por apenas um centímetro.
Marítimo cai nos minutos finais frente ao FC Porto
Verde-rubros estiveram em vantagem com um golaço de Szalai, mas os dragões deram a volta ao marcador, com o golo decisivo a ser validado pelo VAR
Carolina Rodrigues , 10 Outubro 2026 - 19:58
O lance voltou a colocar em evidência a precisão milimétrica das decisões de arbitragem e a influência que diferenças mínimas podem ter no resultado de uma partida. Mas existem precedentes no futebol profissional português e nas principais competições europeias, tanto de golos anulados por um centímetro como de outros validados com uma diferença de zero centímetros.
Um centímetro que impediu o Vizela de chegar ao 3-1
Um dos exemplos mais conhecidos em Portugal aconteceu a 12 de Setembro de 2021, no encontro entre o Gil Vicente e o Vizela, da I Liga, que terminou empatado 2-2.
Aos 84 minutos, Kévin Zohi introduziu a bola na baliza gilista, quando o Vizela vencia por 2-1. O árbitro assistente assinalou fora-de-jogo e o VAR confirmou a decisão, identificando uma posição irregular por apenas um centímetro.
O clube vizelense reagiu publicamente ao lance, sob o título «A um centímetro da vitória», salientando que a anulação impediu a equipa de ampliar a vantagem para 3-1. O Gil Vicente acabaria por empatar aos 90 minutos, através de Fran Navarro.
O episódio tornou-se um dos exemplos mais mediáticos da aplicação do VAR em Portugal e mostrou como uma diferença mínima pode alterar o desenvolvimento de um jogo.
Quando o VAR indica zero centímetros
Nem todas as decisões milimétricas resultam na anulação de golos. Há também situações em que o sistema considera o atacante em linha com o penúltimo adversário, permitindo a validação.
No encontro entre o FC Porto e o Vizela, disputado em 2022 e terminado com uma vitória portista por 4-2, o golo do vizelense Nuno Moreira foi validado pelo VAR. A análise indicou uma diferença de zero centímetros, ou seja, o jogador estava em linha e não em posição irregular.
Outro exemplo ocorreu na época 2020/21, no encontro entre o Belenenses SAD e o Tondela. Aos nove minutos, Ronan marcou para a equipa beirã num lance em que a análise tecnológica também indicou zero centímetros de diferença em relação à linha defensiva.
Estes casos ajudam a distinguir duas situações: um jogador que está um centímetro adiantado e, por isso, em posição irregular, e outro que está em linha com o adversário e deve beneficiar da decisão favorável ao ataque.
A polémica chegou ao Euro 2024
A discussão também marcou o Campeonato da Europa de 2024. A 29 de Junho, no encontro dos oitavos-de-final entre a Alemanha e a Dinamarca, um golo de Joachim Andersen foi anulado após intervenção do VAR.
O lance foi invalidado porque Thomas Delaney, que participou na construção da jogada, estava em posição de fora-de-jogo. O seleccionador dinamarquês, Kasper Hjulmand, contestou a decisão e afirmou ter uma imagem que evidenciava uma diferença de apenas um centímetro.
Pouco depois, o próprio Andersen foi sancionado com uma grande penalidade por mão na bola, convertida por Kai Havertz. Jamal Musiala marcou o segundo golo alemão, fixando o resultado em 2-0 e confirmando a eliminação da Dinamarca.
A polémica mostrou que as decisões milimétricas não são exclusivas dos campeonatos nacionais e podem assumir particular relevância em jogos a eliminar de grandes competições internacionais.
A tecnologia e as diferenças entre competições
A determinação do fora-de-jogo através do VAR depende da identificação do momento em que a bola é jogada, da posição dos jogadores e das partes do corpo consideradas relevantes pela lei.
O sistema de fora-de-jogo semi-automático utiliza câmaras de seguimento e dados de posicionamento para ajudar a identificar situações irregulares e gerar as linhas virtuais. Apesar da automatização de várias etapas, a decisão continua a envolver supervisão humana: o VAR verifica se o sistema identificou correctamente o momento do passe, os jogadores e os pontos corporais relevantes.
As tecnologias e os procedimentos não são idênticos em todas as competições. Em Inglaterra, por exemplo, a Premier League introduziu o sistema de fora-de-jogo semi-automático em Abril de 2025, procurando tornar as decisões mais rápidas e consistentes.
"Nunca soube que os Barreiros era tão inclinado"
Técnico do Marítimo deixou uma observação irónica após a derrota frente ao FC Porto
Carolina Rodrigues , 10 Outubro 2026 - 20:48
Importa ainda esclarecer que a indicação de zero centímetros não significa que tenha sido assinalado um fora-de-jogo sem margem de erro. Significa que, de acordo com a análise apresentada, não existia uma diferença que colocasse o atacante em posição irregular.
A Lei 11 do futebol determina que um jogador só está em posição de fora-de-jogo quando uma parte da cabeça, do tronco ou dos pés se encontra mais próxima da linha de baliza adversária do que a bola e o penúltimo adversário, no momento em que a bola é jogada por um colega. As mãos e os braços não são considerados para este efeito.
Um centímetro leva Marítimo a pedir sistema semi-automático de apoio ao VAR
Carlos André Gomes defende que medida vai reforçar o rigor e credibilidade da arbitragem
Carolina Rodrigues , 14 Outubro 2026 - 19:58
Existem precedentes documentados. Em Portugal, o golo de Kévin Zohi, do Vizela, foi anulado por um centímetro em 2021, enquanto os golos de Nuno Moreira, do Vizela, em 2022, e de Ronan, pelo Tondela, em 2020, foram validados com uma diferença indicada de zero centímetros. No Euro 2024, a anulação de um golo da Dinamarca também foi contestada por uma diferença de um centímetro.
Os casos identificados confirmam que decisões desta natureza não são inéditas no futebol português ou europeu.