Os inquéritos nacionais de saúde são feitos sem critério?
O Inquérito Nacional de Saúde 2025 (INS) integra o projecto europeu EHIS e é regulado pelo Regulamento (UE) 2019/1700, também designado Regulamento IESS a partir de 2025, e pelo Regulamento de execução (UE) 2023/2529, que fixa as variáveis e os critérios da recolha. Tal como em 2014 e 2019, foi harmonizado a nível europeu, o que permite comparações internacionais. As questões nacionais, como a satisfação com a vida, foram preparadas com o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.
Tendo isso como premissa, dadas as muitas dúvidas - até esta tarde, havia já mais de 750 comentários à notícia publicada pelo DIÁRIO na manhã da sexta-feira passada, 9 de Outubro -, levantadas pelos leitores, nomeadamente na nossa página de Facebook, a maioria dos quais duvidava da validade das conclusões dos resultados do INS 2025, impõem-se tentar esclarecer, através deste fact-check se, efectivamente, se estes estudos são feitos com critério e, já agora, explicar como são feitos.
Madeirenses são dos mais satisfeitos com a vida
Os madeirenses estão entre os residentes mais satisfeitos com a vida em Portugal, revela o Inquérito Nacional de Saúde de 2025, divulgado hoje pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).
Para começar. Ninguém escolheu quem responde. A amostra, de 22.000 alojamentos (2.520 na Madeira), é estratificada e multietápica por regiões NUTS II. As unidades primárias, células de 1 km2 da grelha INSPIRE, foram seleccionadas de forma sistemática, com probabilidade proporcional ao número de alojamentos; dentro delas, os alojamentos foram escolhidos de modo aleatório e sistemático. Em cada casa responde um único residente com 15 ou mais anos: aquele cujo aniversário foi o mais recente.
Assim, entre Setembro e Dezembro de 2025, as entrevistas fizeram-se presencialmente, por telefone e via web. Houve 15.092 respostas válidas, uma taxa de resposta de 68,6%, ou seja, cerca de dois em cada três contactados. Os resultados são ponderados por região, idade, sexo, escolaridade e dimensão do agregado, com base nas estimativas da população residente, e os pesos extremos foram limitados (abaixo do percentil 1 e acima do percentil 99). Incluiu-se ainda um módulo para menores de 15 anos, respondido pelos pais.
O INE admite também os limites. Cada estimativa tem um coeficiente de variação e não é divulgada se ultrapassar 20%, razão pela qual há células com 'x' nas tabelas. E avisa que comparar 2025 com 2014 e 2019 exige cautela, por causa das novas estimativas da população. Nada disto é segredo: está tudo na nota metodológica que é publicada tanto pela DREM como pelo INE.
A satisfação mede-se com a escala de Diener (1985): cinco perguntas, respostas de 1 a 7 e seis níveis, de bastante insatisfeito a bastante satisfeito. Não é uma opinião avulsa nem uma sondagem de rua, mas um instrumento padronizado, igual para todos. Discordar do resultado é legítimo; dizer que foi obtido sem critério, não.
Aliás, todos os inquéritos à população ou a determinados sectores elaborados pelas autoridades estatísticas regem-se por regras criteriosas, precisamente com o objectivo de garantir a fiabilidade e confiabilidade dos resultados.
Satisfação com a vida: o que dizem os INS de 2014, 2019 e 2025
O título resume-se bem: 78,8% dos madeirenses com 15 ou mais anos estão razoavelmente satisfeitos, satisfeitos ou bastante satisfeitos com a vida. Aliás, se fosse para fazer um título com toda a informação e não um resumo da ideia, seria preciso escrever "Inquérito do Instituto Nacional de Estatística, feito em 2025, conclui que 78,8% dos madeirenses com 15 ou mais anos disse estar bastante satisfeita, satisfeita ou razoavelmente satisfeita com a vida, superando a média de das outras regiões de Portugal". Impraticável, portanto, para um título que tem de ser conciso e factual.
Mas para comparar, por exemplo, os números de 2019 e 2014 com os de 2025 obrigam a uma leitura com cuidado. Esse total foi de 77,8% em ambos os INS de 2029 e 2014, apontando a um retrato de estabilidade e não necessariamente de subida.
O que mudou foi a intensidade. Os satisfeitos ou bastante satisfeitos passaram de 53,3% (2014) e 54,1% (2019) para 60,9% (2025), à custa dos 'razoavelmente satisfeitos' (24,5%, 23,7% e 17,9%, respectivamente).
Há ainda o lado que o título não mostra. A categoria 'bastante insatisfeito' surge como 'x' (valor não disponível) nas três tabelas. Mas as restantes não somam 100%, e o que falta aponta para cerca de 5% em 2014, 7% em 2019 e 10% em 2025. É uma estimativa por diferença, não um dado do INE. Com ela, 21,2% dos madeirenses revelam algum grau de insatisfação, contra 22,2% em 2019 e em 2014, denotando-se portanto que 1 em cada 10 está 'bastante insatisfeito'.
Há ainda a polarização: os insatisfeitos e ligeiramente insatisfeitos desceram de 17,2% (2014) para 15,5% (2019) e 11,0% (2025), enquanto a fatia implícita de 'bastante insatisfeitos' subiu.
A diferença entre sexos também aumentou. Entre os homens, os satisfeitos ou bastante satisfeitos eram 54,7% em 2014, 56,8% em 2019 e 64,5% em 2025; entre as mulheres, 52,3%, 51,7% e 57,7%. Os jovens dos 15 aos 24 anos lideram: 77,9% satisfeitos ou bastante satisfeitos, contra 54,5% nos maiores de 65 anos.
Pode ver tudo nas imagens anexas.
Em suma: o inquérito não mostra uma região feliz de forma uniforme. Mostra uma maioria satisfeita, estável há mais de onze anos, e uma minoria que não se revê num título, muitos revelando quase automaticamente que não se deram ao trabalho de ler a notícia em si, ficando-se pelo título.