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Francisco Simões, um artista maior do que a ilha

“Há homens que, pela sua grandeza, nos confrontam com a nossa pequenez”

Morreu, no passado dia 16, Francisco Simões, um artista multifacetado, com uma vida de tal forma imbricada com a Madeira que não é possível falar dele sem destacar o amor que tinha pela nossa ilha.

Chegou cá, no início da década de 70, ainda muito jovem, para ser professor de artes. Passou pelo Funchal e, de seguida, foi diretor da Escola da Ribeira Brava, entre 1972 e 1975, onde desenvolveu um projeto notável como educador e pedagogo, fazendo da rua e da terra a base de uma pedagogia inovadora que despertava nas crianças o gosto natural de descobrir e perceber o que as rodeava, aprendendo naturalmente sob a orientação dos adultos. No entanto, o seu espírito destemido e a luta pelos direitos dos mais desfavorecidos despertaram as atenções dos defensores do statu quo e dos que temiam a abertura da Madeira aos valores de Abril, que despertavam no povo a esperança de vidas mais dignas, nas quais a educação teria um papel preponderante. Foi, por isso, perseguido e, literalmente, corrido da ilha. Levou-a, para sempre, no coração, não só porque cá deixava descendência, mas também porque a amava profundamente.

Percorreu o mundo; cresceu como homem e como artista. Valia-lhe a energia quase inesgotável e a torrente criativa para satisfazer a avidez da procura pelas suas produções artísticas. De todos os cantos surgiam novos desafios, que enfrentava com entusiasmo e uma capacidade de resposta surpreendentes. Foi assim, quase, quase, até ao fim.

Podemos encontrar obras de Francisco Simões por quase todo o país. Algumas olham-nos enquanto passamos a correr pelas estações de metro do Rato (bustos de Vieira da Silva e Arpad Szenes) e do Campo Pequeno (mulheres de Lisboa e painéis tauromáquicos), ou enquanto nos passeamos pelas ruas de cidades portuguesas como o Porto (a polémica estátua Amor de Perdição), Grândola, Vila Viçosa, Almada ou Seixal; outras estão disponíveis em livros de arte e de literatura, em coleções de arte particulares ou em museus nacionais e estrangeiros. O Parque de Poetas, que concebeu com o seu grande amigo David Mourão-Ferreira, em Oeiras, merece um destaque especial pela sua singularidade e grandiosidade.

A arte de um grande defensor do acesso democrático à arte espalhada aos quatro ventos e ao dispor de quem a queira contemplar.

Foi, porém, necessário chegar aos 77 anos de vida para Francisco Simões ter uma obra pública no Funchal, paixão da juventude nunca esquecida. Aconteceu no dia 5 de outubro de 2023, com a inauguração da estátua “A Professora”, cujo trabalho ofereceu ao Sindicato dos Professores da Madeira (de que era sócio honorário), em homenagem a todos os docentes. Uma obra que contou com o apoio da CMF.

A inexplicável resistência de muitos governantes regionais à arte e à pessoa de Francisco Simões, explico-a numa perífrase inspirada na personagem Sousa Falcão de Felizmente Há Luar, de Luís de Sttau Monteiro: Há homens que, pela sua grandeza, nos confrontam com a nossa pequenez.

Francisco Simões era um desses.