Cadeia de testemunhos e oração pela unidade e a paz

A semana de oração pela unidade dos cristãos, batizados na água e no Espirito Santo, é também um apelo a rezar e evangelizar sem limites. Que limites, perguntará o leitor? Já lá vamos. Jesus foi o primeiro a rezar por esta unidade e logo estabeleceu grande abrangência da terra ao Céu, do humano ao divino, do presente ao futuro longínquo, dos que creem hoje aos que creem amanhã porque outros entraram em relação de ouvintes da palavra e testemunho de vida. Pai Santo, rogo por eles e por aqueles que por sua palavra hão de crer em mim. “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste” (cf. Jo 17,20-21). Jesus ensinou a mais bela e significativa oração que somos convidados a rezar neste oitavário e sempre. É uma oração de humildade. Rezá-la é reconhecer que se precisa do Pai.

Quando a mãe do menino João e da menina Sónia os ensina a rezar o Pai Nosso, ensina uma oração sem limites de relações humano-divinas. Os individualismos egocêntricos ficam ultrapassados. Dizer “Pai Nosso que estais no Céu” e dizer “venha a nós o vosso Reino” já leva para fora de todos os limites do eu: “estais no Céu”, o vosso Reino, a vossa vontade, na terra e no Céu são dimensões imensas, relações e pertenças sem limites terrenos e universais. Será que os astrofísicos sabem onde estão os limites do universo? A oração do Pai Nosso é oração sem fronteiras que engloba dimensões infinitas. Acaba por ser uma oração global; globalíssima. Quem sabe até onde irá o globo terrestre? Continuando a rezar o Pai Nosso encontram-se outras relações de que ignoramos o alcance. Nos dizeres: “o pão nosso de cada dia, nos dai hoje”, quantos precisam ou já precisaram desse pão? E por que é preciso pedi-lo? Talvez porque os homens do mundo não o querem partilhar. Todas as vezes que na oração dizemos “nosso”, Pai Nosso, venha a nós, nos, perdoai-nos como nós, não nos deixeis cair, livrai-nos, estamos na terra a viver em relações com milhões de irmãos e irmãs, porque o Pai é o mesmo. E se a oração é coerente e verdadeira aceitam-se os irmãos e as irmãs, e estamos também em relação com todos e todas. Mas não são as únicas relações que situam os que rezam pela unidade dos cristãos, neste ambiente global, que dão a identidade de irmãos. Reza-se, também, Pai nosso, vosso nome, o vosso reino, a vossa vontade (de Deus), e por isso a verdade da oração é acreditar ou o desejo de acreditar que Ele é Pai e os orantes que ele ama como “paizinho” são seus filhos. As relações de filiação, de paternidade, de fraternidade, de comunidade orante de batizados no Espírito Santo, expressas por esta oração são incontáveis e ligam realidades e pessoas entre si, e com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e com os irmãos e irmãs. Não estarem unidas a Jesus é um contrassenso. E se estiverem unidas a Cristo, estão unidas entre si.

Se passarmos à oração da Ave, Maria! tanto ou mais rezada pelos batizados cristãos, encontramos a relação dela com o Senhor: “o Senhor está contigo”; e as palavras de Isabel: “bendita és tu entre as mulheres” abrem relações, para a terra e a humanidade, na linha de toda a História, desde a primeira Eva pré-histórica à última da História que ninguém sabe quando será, sem esquecer a relação que liga a carne materna ao Espírito Santo que a fecundou, ligando o Céu e a terra na palavra: “bendito é o fruto do teu ventre, Jesus”. É a Mulher mais unida com Jesus seu Filho, o qual na Cruz nos uniu a Ela como Mãe, nossa Mãe.

Jesus na sua oração da unidade pede pelos que receberam a sua palavra diretamente e por aqueles que acreditam n’Ele por receberem a palavra dos primeiros “para que todos sejam um (…) e eles estejam em Nós e o mundo acredite que tu me enviaste” (Jo 17, 20), exprimindo assim uma cadeia dos que acreditam em Jesus: os ouvintes diretos de Jesus, os ouvintes desses; e todos (mundo que ainda é pagão) venham a saber que Jesus é o Enviado do Pai.

Esta cadeia de evangelização de testemunhas, de testemunhas, de testemunhas… de fé e oração até onde irá? Será de fraqueza que os pretensos autossuficientes negam, mas os muitos Auschwitzes (que não vou tentar fazer lista) vão confirmando? Sim, fraqueza de muitos políticos e governantes que não conseguem passar das guerras à paz e melhor bem-estar. Mais oração e confiança no Senhor unidas ao bem, que os orantes fazem de bem é o maior trunfo dos pacificadores porque contam com a ressurreição de Cristo que revela que «a morte não se opõe à vida» (Leão XIV», 10.10.2025).

Aires Gameiro