No melhor pano...

As acusações recentes que envolvem agentes da PSP (crimes graves, violentos e moralmente repugnantes), exigem reflexão séria. Não histeria, não julgamentos apressados, mas também não silêncio confortável. Há perguntas que têm de ser feitas, mesmo quando incomodam.

Convém deixar algo claro desde o início: não se pode afirmar, de forma inequívoca, que o alívio dos critérios de recrutamento seja a causa direta dos comportamentos agora conhecidos. Não acredito em bruxas. Não acredito em relações automáticas de causa-efeito, nem em explicações simplistas para fenómenos complexos. A realidade raramente é assim tão linear.

Mas, e aqui está o ponto, também não acredito em coincidências absolutas. E quando certos padrões começam a repetir-se, o mínimo que se exige é atenção.

A PSP tem enfrentado dificuldades sérias em recrutar novos efetivos. Para responder a essa escassez, optou-se por flexibilizar exigências físicas, psicológicas e comportamentais. A decisão pode até ter sido pragmática. Mas pragmatismo sem cautela é um risco antigo, bem conhecido da história.

Chama a atenção o facto de vários dos agentes envolvidos nestes casos serem muito jovens, com pouco mais de 24 anos. Juventude, por si só, não é defeito. Todos fomos jovens. Mas a função policial exige maturidade emocional, autocontrolo e uma noção muito clara de limites — coisas que não se improvisam nem se decretam por despacho.

Antigamente, e não há mal nenhum em dizê-lo, a entrada na polícia era encarada com outro peso. Havia uma cultura de exigência, de disciplina e de responsabilidade que funcionava como filtro natural. Não impedia todos os desvios, é certo, mas criava uma barreira. Hoje, essa barreira parece mais baixa. E quando se baixa a fasquia, entram mais pessoas… mas nem sempre entram as certas.

Isto não significa que todos os novos agentes sejam maus profissionais. Longe disso. A maioria cumpre, respeita e serve com dignidade. Mas basta uma minoria mal preparada para destruir a confiança de muitos anos entre a polícia e as populações.

A autoridade policial não nasce da farda nem da arma. Nasce da legitimidade moral. E essa perde-se rapidamente quando surgem casos que fazem os cidadãos perguntar se quem devia proteger não estará, afinal, a abusar do poder que lhe foi confiado.

Não se trata de caça às bruxas. Mas convém lembrar que, ao longo da história, sempre que alguém dizia “não acredito em bruxas”… era porque já tinha visto fumo suficiente para saber que algo ardia.

Ignorar os sinais nunca foi sinal de prudência. Foi, quase sempre, sinal de negação.

Um bem haja para todos os policias de bem.

António Rosa Santos