Marítimo foi Campeão de Portugal há 98 anos
Ainda hoje é o maior feito do desporto madeirense
Faz hoje 98 anos que o C. S. Marítimo foi campeão de Portugal, naquele que é ainda o seu maior feito desportivo. Aconteceu a 6 de Junho de 1926, na cidade do Porto.
Nessa altura, nos primórdios do futebol em Portugal, era a competição máxima que se disputava no país. A prova comportava uma fase final que englobava os 12 campeões das Associações de Futebol: Olhanense (Algarve), Sporting de Espinho (Aveiro), Luso Beja (Beja), Sporting de Braga (Braga), União de Coimbra (Coimbra), FC Porto (Porto), Estrela de Portalegre (Portalegre), Os Leões de Santarém (Santarém), Sport Clube Vianense (Viana do Castelo), Vila Real (Vila Real) e Marítimo (Funchal).
A prova iniciou-se, em fase de eliminatórias, a 9 de Maio, e concluiu-se com a Final disputada a 6 de Junho. O C. S. Marítimo apurou-se directamente para as meias-finais, após ter conquistado o apuramento regional, ao sagrar-se campeão da Madeira pela quinta vez consecutiva. Um título conquistado após uma finalíssima com o CF União.
Feito isto, a 14 de Maio de 1926, a bordo do vapor S. Miguel, o Marítimo parte para a sua quarta presença, em cinco edições, no Campeonato de Portugal. Joaquim Quintino Travassos Lopes, presidente do clube e o vogal João de Araújo, chefiavam a caravana.
Na primeira meia-final, disputada no Porto, os Belenenses batereram o Olhanense por 2-1. Estava apurado o primeiro finalista. No outro jogo, realizado a 23 de Maio de 1926, o campeão do Funchal (como a imprensa continental então designava o Marítimo) bateu o campeão do Porto (FootBall Club do Porto) por uns espantosos 7-1. Afinal o FC Porto vencera a prova no ano anterior e estava em Lisboa para defender o seu título.
O FC Porto tinha, à época, um guarda-redes famoso, Siska de seu nome. Nascido em Budapeste, na Hungria, fora guarda-redes do Vasas e ficou ligado a episódios misteriosos, chegando mesmo a constar que fazia espionagem a favor dos ingleses no período que antecedeu a segunda guerra mundial. Mas essa tarde de 23 de Maio, no jogo disputado no Campo Grande, foi um pesadelo para o grande Siska. “O guarda-redes do Porto, Siska, é formidável. Mas teve de ceder... sete vezes.”, escrevia-se no Diário de Noticias de Lisboa sobre o jogo disputado no Campo Grande.
Mas o Marítimo já era respeitado à altura. E havia a ideia de que os madeirenses eram fortes nas estratégias do futebol, fruto da influência inglesa na Madeira e pelo facto de ter sido na Camacha que se disputou o primeiro jogo de futebol em território nacional. E tinham os verde-rubros grandes jogadores, como José Ramos (José Pequeno) ou António Teixeira ‘Camarão’, treinados pelo treinador húngaro Francisco Ekker.
No jogo, Hall abriu o marcador para o FC Porto, mas rapidamente o Marítimo virou o resultado. Manuel Ramos faz o empate e depois António Alves faz dois golos. Camarão aumenta para 4-1, António Alves dilata para 5-1, Manuel Ramos 6-1 e finalmente António Alves, o terror de Siska, fecha o resultado.
A imprensa considerava, depois deste jogo, que o Marítimo era o grande favorito, pois dizia que “o Belenenses não se aguentará facilmente com um grupo que venceu o FC Porto por 7-1, sabido que o Porto, mesmo em tarde tão infeliz, não conseguiria nunca perder com Lisboa por tão grande diferença”.
Seguiu-se a final. Na altura houve polémica a propósito da marcação da final. A data da final acabou adiada por uma semana em virtude do Belenenses inicialmente não querer jogar no Porto. Alegavam os ‘azuis’ de Belém que a cidade era abertamente contra o clube de Lisboa.
Os maritimistas já estavam há duas semanas no Continente. Mas estavam apenas a hora e meia do maior feito da sua história. O jogo sempre se disputou no Porto, no Campo do Ameal, a 6 de Junho de 1926, num ambiente fantástico, mesclado de ansiedade e curiosidade de assistir.
Aos 35 minutos os verde-rubros não concretizam uma grande penalidade, mas não se deixaram abater. Os golos surgiram só na segunda parte, o primeiro por José Fernandes ‘Bisugo’, estavam decorridos 10 minutos, e o segundo por Jose Ramos (o José Pequeno). O ‘capitão’ do Belenenses, Augusto Silva, foi expulso mas recusou-se a sair. O árbitro acabou nessa altura o jogo. O Marítimo era campeão de Portugal.
A Madeira viveu um momento de festa e celebração. No dia da final, tal como no jogo contra o FC Porto, muitos adeptos do Marítimo dirigiram-se para a Estação Pico-Rádio, onde aguardaram pelo desfecho do jogo. Pouco depois das 17 horas, através da Western Telegraph Company foi recebido o telegrama com a tão desejada noticia: o CS Marítimo era campeão de Portugal. A cidade ficou em polvorosa com milhares de pessoas nas ruas.
A caravana do Marítimo só chegaria à Madeira a 10 de Junho de 1926 a bordo do vapor Lima. A festa prolongar-se-ia por muitos dias. E hoje é uma memória que urge sempre recordar e comemorar.
Ficha do jogo da final
Campo do Ameal, no Porto
Árbitro: José Guimarães (Porto)
Marítimo: Ortega; António Sousa ´Rafão’, José Correia ‘Mariasinha’, António Teixeira ‘Camarão’, Domingos Vasconcelos ‘Beiçolinhas’ (cap.), José Ramos ‘Zé Pequeno’, José Fernandes ‘Bisugo’, António Alves, Manuel Ramos ‘Janota’, José de Sousa ‘Patas’ e Francisco Lopes ‘Fancheca’.
Treinador: Francisco Ekker
Belenenses: Francisco Assis, Júlio Marques, Eduardo Azevedo, César de Matos, Augusto Silva (cap.), José Almeida, Fernando António, Pepe, Rodolfo Faroleiro, Alfredo Ramos e Silva Marques.
Treinador: Artur José Pereira.
Ao intervalo: 0-0
Golos: José Fernandes (55) e Manuel Ramos (70)