Presidente turco critica ocidente por se interessar pelos direitos dos golpistas
Recep Tayyip Erdogan lembrou que na noite de 15 de Julho de 2016 morreram 250 pessoas por causa do golpe perpetrado por 35
O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, criticou hoje os países ocidentais por apenas se preocuparem pela situação em termos de direitos humanos dos envolvidos na fracassada tentativa de golpe militar de 15 de julho de 2016.
“Naquela noite morreram 250 dos nossos cidadãos face a apenas 35 golpistas. Mas o ocidente apenas pergunta por um bando. Perguntam quantos estão na prisão. Perguntem antes quantas pessoas eles mataram!”, assinalou Erdogan.
“Se a Turquia não fosse um Estado de direito, esses traidores não estariam agora na prisão mas antes enterrados num qualquer buraco”, disse o chefe de Estado turco durante um discurso pronunciado em Ancara e transmitido em direto pela cadeia televisiva NTV.
Erdogan também dirigiu duras palavras aos críticos das purgas do Governo dirigidas a alegados simpatizantes do golpe no funcionalismo público, e que foram desencadeadas a partir da manhã de 16 de julho de 2016, quando foi declarado o fracasso da intentona.
“Que trabalhem no privado. Poderá o Estado alimentar uns traidores?”, perguntou, citado pela agência noticiosa Efe.
O Presidente turco reiterou que o estado de emergência, imposto em 20 de julho de 2016 e que “legitimou” as vastas purgas no país euroasiático, vai manter-se em vigor enquanto prosseguir a perseguição às redes golpistas.
“Perguntaram-nos quando se vai levantar o estado de exceção. Será levantado quando terminarem todas estas calamidades. Não se espere que seja levantado antes”, sentenciou.
O primeiro-ministro, Binaldi Yildirim, confirmou hoje que nos próximos dias o partido no poder (AKP, liderado por Erdogan), vai propor no parlamento o prolongamento do estado de emergência, que desde o falhado golpe tem sido renovado em cada três meses.
Erdogan sublinhou o heroísmo da população ao enfrentar os golpistas e assegurou que “o povo turco merece o prémio Nobel da Paz”.
No entanto, os anúncios que assinalam o primeiro aniversário do golpe estão a suscitar controvérsia na Turquia, com alguns setores a considerarem que as imagens denigrem as Forças Armadas.
Os anúncios, que incluem o símbolo da presidência turca, surgiram nos últimos dias em painéis publicitários em várias cidades turcas com a aproximação da evocação do golpe. As imagens mostram cidadãos turcos confrontando os soldados golpistas na noite de 15 de julho de 2016.
Um porta-voz do CHP, o principal partido da oposição, denunciou os cartazes ao considerar que incitam à “animosidade face às Forças Armadas”, referiu a agência noticiosa France-Presse (AFP).
O partido da direita nacionalista MHP, aliado do Presidente Erdogan, também se insurgiu contra os cartazes. “Não refletem o espírito do 15 de julho”, declarou o deputado Erkan Akcay, também citado pela AFP.
O primeiro-ministro rejeitou hoje as críticas, afirmando que os cartazes “não têm nada de degradante” e afirmou que os soldados que participaram na tentativa de golpe “não representam as Forças Armadas” mas eram “terroristas disfarçados com fardas de soldados”.
O Governo turco tem acusado a rede do predicador islamita Fethullah Gülen, exilado nos Estados Unidos desde 1999, de ter organizado o sétimo golpe de Estado desde a fundação da República da Turquia (1923), e desencadeou uma repressão sem precedentes contra os alegados membros desta organização.
Aliado decisivo na ascensão e na tomada do poder em 2002 pelo Partido da Justiça e do Desenvolvimento de Erdogan (AKP, de tendência islamita e conservadora), Gülen e o então ainda primeiro-ministro entraram em rutura em 2013, com o predicador a ser acusado de tentativa de “formação de um Estado paralelo” através da sua poderosa rede “Movimento Hizmet” (O Serviço). Gülen tem desmentido todas as acusações.
As vagas de detenções e despedimentos também abrangeram diversos setores sem ligação ao clérigo islamita -- incluindo jornalistas, académicos, políticos da oposição, ativistas de ONG, magistrados --, suscitando fortes críticas internas e internacionais.