A Ilha do Ogre segundo Viale Moutinho
Há livros que o tempo não envelhece, torna mais nítidos. A Ilha do Ogre, de José Viale Moutinho, publicado em 2003, pode hoje ser relido como uma metáfora particularmente perturbadora acerca do poder. Não apenas da ilha desfigurada pelo chamado progresso, mas da ilha submetida a uma determinada ideia de desenvolvimento — e, sobretudo, a uma determinada forma de exercício do poder.
A ilha, tantas vezes vendida como promessa de paraíso, surge aqui sob outra luz. Há qualquer coisa que ameaça devorá-la. O ogre é uma presença fantástica, mas também pode ser uma metáfora demasiado real: a do tempo que tudo desforma, da suposta modernidade que avança, do poder pelo poder.
Viale Moutinho conhecia bem a memória destas ilhas. Conhecia as histórias que passam de boca em boca, os pequenos mitos, as superstições, as personagens populares, os restos de um mundo que a literatura pode salvar do desaparecimento. A sua escrita nasceu muitas vezes desse gesto de recolha, no escutar aquilo que outros poderiam considerar menor e perceber que ali, nessas vozes aparentemente frágeis, se escondia uma parte essencial de nós.
Em A Ilha do Ogre, a Madeira deixa de ser apenas território. Torna-se uma condição. Uma ilha é sempre um lugar cercado pelo mar, mas também é um lugar cercado pela memória. Dentro dela cabem os mortos, os que partiram, os que ficaram, as casas demolidas, os caminhos alterados, as palavras que já quase ninguém pronuncia. E talvez o ogre seja precisamente isso, aquilo que chega para devorar o que julgávamos perene.
Viale Moutinho faleceu em setembro de 2026, aos 81 anos. Ficou a obra, vasta e múltipla, de poeta, ficcionista, jornalista, investigador e recolhedor de histórias. Mas ficou também uma maneira muito particular de olhar. Um olhar que não aceitava o esquecimento como destino.
O escritor não nos oferece um programa político. Oferece-nos algo talvez mais importante, uma imagem através da qual podemos interrogar o presente.
O ogre é um regime, um sistema de prioridades. É a lógica que, depois de devorar uma montanha, precisa de outra; depois de ocupar uma encosta, procura a seguinte; depois de deformar a paisagem, chama inevitável à agressão seguinte.
Estudos sobre a obra de Viale Moutinho identificam precisamente nessa visão uma leitura disfórica da ilha, marcada pela crítica e pela ironia perante a vertigem da dita modernização.
Mas talvez a sua Madeira permaneça como uma das imagens mais fortes da sua literatura. Uma Madeira vista de dentro, com afeto, mas sem complacência. Em A Ilha do Ogre, o poeta olha para a ilha que conhece e reconhece nela aquilo que está em decomposição. O ogre é o poder quando se torna voraz.