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Exame cardíaco nos cuidados primários pode detectar doença invisível

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Uma investigação liderada por um médico investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) concluiu que a realização, nos cuidados primários, de uma ecografia cardíaca permite identificar "doença estrutural que parece invisível", antecipando tratamentos, foi hoje divulgado.

Em causa estão doentes que apresentam sintomas como cansaço ou falta de ar que são frequentemente atribuídos à idade, mas podem ser os primeiros sinais de insuficiência cardíaca, que a olho nu pode não ser detetada, razão pela qual o investigador Jonathan dos Santos quer juntar aos exames convencionais realizados nos cuidados de saúde primários uma ecografia conhecida como POCUS cardíaco.

"Estamos a falar de uma consulta de medicina geral e familiar com um exame objetivo que inclui ecografia, um exame objetivo melhorado. É a ecografia que no futuro se pensa que vai substituir o estetoscópio. Nós vemos um doente, na auscultação cardíaca ouvimos sons, mas não olhamos lá para dentro e a ecografia permite ver o que está lá está dentro", explicou o médico.

Em entrevista à agência Lusa, quando se assinala o Dia Mundial do Coração, o autor de um estudo que juntou dados de 196 doentes, com idade média de 66 anos, seguidos nos cuidados de saúde primários de Fervença, concelho de Celorico de Basto, avançou que os resultados indicam que a realização da POCUS cardíaco pelo médico de família permitiu identificar "doença estrutural que estava invisível".

"Detetámos quase seis vezes mais hipertrofia ventricular esquerda do que o tradicional eletrocardiograma e pedimos menos ecocardiogramas desnecessários", disse Jonathan dos Santos.

O estudo, publicado no ano passado na Revista Family Practice, foi realizado no âmbito do doutoramento de Jonathan dos Santos, intitulado "Cardiac point-of-care ultrasound in primary care: improving early detection and management of cardiovascular disease", em português livre: Ecografia cardíaca à beira do leito na atenção primária: melhorando a deteção precoce e a gestão de doenças cardiovasculares.

Entretanto, para responder a novas perguntas e intensificar o alerta sobre a importância de introduzir novos métodos nas consultas de medicina geral e familiar em Portugal, Jonathan dos Santos está a liderar uma nova investigação que deverá abranger 400 doentes de quatro Unidades de Saúde Familiares (USF): USF Garcia de Orta da ULS Santo António (Porto), USF Rodrigues Miguéis e USF do Parque, da ULS Santa Maria (Lisboa), bem como USF Conde da Lousã da ULS Amadora/Sintra.

"Demos formação aos médicos [de família] e eles têm estes equipamentos disponíveis. Estão a testar a aplicação deste exame juntamente com a análise sanguínea no sentido de melhorar o diagnóstico, reduzir as agudizações da doença e acelerar o tratamento", descreveu, recordando que "a população está a envelhecer, a esperança média de vida tem aumentado, e ao se envelhecer mais, há mais oportunidade para ter doença cardíaca".

"E a insuficiência cardíaca é provavelmente das patologias que mais impacto tem na morbilidade, ou seja, nas hospitalizações, na mortalidade, na qualidade de vida. Logo, tem um impacto considerável no PIB [Produto Interno Bruto] português", referiu o médico.

A doença cardiovascular continua a ser a principal causa de morte a nível mundial.

Em Portugal, estima-se que a insuficiência cardíaca afete cerca de 16% dos adultos com idade igual ou superior a 50 anos e 30,7% das pessoas a partir dos 70 anos.

Alertando que muitos destes doentes são diagnosticados porque vão à urgência já numa fase aguda da doença, Jonathan dos Santos insiste que "isso significa que se perdeu a oportunidade de se diagnosticar esta doença nos cuidados primários".

"E se nós conseguirmos ter mais oportunidade de diagnosticar nos cuidados primários, estas pessoas vão ter melhor qualidade de vida, vão menos ao serviço de urgência, vão ser menos internadas e isto vai reduzir custos e esforço hospitalar", reforçou.

Jonathan dos Santos ressalva que este "não é um estudo completo do coração e não substitui a decisão de pedir mais exames", mas ajuda a perceber se é preciso pedir mais ou não.

"Aprimora a nossa decisão do momento. Ao acelerar a decisão, é expectável que se acelere também o tratamento", resumiu.

Admitindo que em Portugal o acesso a este exame "é muito reduzido", Jonathan dos Santos contou à Lusa que na Noruega, em Espanha ou na Alemanha, esta já é uma prática comum.

"Na Noruega, quando o POCUS passou a ser reembolsado, o número de exames aumentou cerca de seis vezes entre 2009 e 2016. Algumas USF em Portugal já adquiriram estes equipamentos através dos incentivos institucionais. Ainda assim, é pouco e é necessária formação. Em Portugal ainda estamos muito atrás", lamentou.