Viver numa ilha não pode custar mais
Durante demasiado tempo, falar de insularidade em Portugal foi quase falar de uma fatalidade geográfica. Como se nascer ou viver numa ilha significasse aceitar pagar mais, esperar mais e ter menos alternativas.
Mas aquilo que tantas vezes denunciámos deixou de ser apenas uma perceção. A própria Comissão Europeia reconheceu recentemente que a insularidade tem um custo económico, social e fiscal concreto.
Na sua Estratégia da União Europeia para as Ilhas, apresenta números que não podem ser ignorados: os custos de transporte podem ultrapassar em mais de 300% os valores de referência do continente; as despesas da administração local por habitante podem ser entre 30% e 50% superiores; e os preços da habitação podem atingir valores entre 75% e 130% mais elevados em determinados municípios insulares.
Ou seja: viver numa ilha custa mais.
E se custa mais por razões geográficas permanentes, esses sobrecustos não podem continuar a ser suportados exclusivamente por quem vive nas ilhas.
É verdade que esta Estratégia não se aplica diretamente às regiões ultraperiféricas, como a Madeira e os Açores, que possuem um enquadramento específico ao abrigo do artigo 349.º do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia. Mas a Comissão anuncia a atualização dessa estratégia específica.
Portugal tem de aproveitar esta oportunidade.
A Comissão identifica a conectividade como um dos principais desafios das ilhas e reconhece a possibilidade de apoios públicos, incluindo Obrigações de Serviço Público, quando o mercado não assegura continuidade, regularidade, preços ou capacidade adequados nas ligações aéreas e marítimas.
Bruxelas recomenda ainda mecanismos de compensação e subvenções específicas e a manutenção de serviços de ferry fiáveis durante todo o ano.
Perante isto, de que está Portugal à espera?
Defendo assim a criação de um mecanismo nacional de compensação dos sobrecustos da insularidade, com expressão permanente no Orçamento do Estado, destinado à Madeira, Porto santo e aos Açores e capaz de atuar na mobilidade, transporte de mercadorias, energia, habitação, saúde e serviços públicos. É isso que irei já defender no Orçamento de Estado para o ano de 2027.
Não estamos a pedir privilégios. Estamos a exigir igualdade entre portugueses.
A continuidade territorial não pode continuar a ser uma expressão bonita repetida nos discursos. Tem de significar políticas, financiamento e resultados concretos.
A Europa já reconheceu que a insularidade tem um custo. Portugal tem de retirar as consequências.
Porque ser português numa ilha não pode custar mais do que ser português no continente.