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Foto Rui Silva/Aspress
Explicador Madeira

Cinco perguntas e cinco respostas sobre as lanchas rápidas do narcotráfico

Nos últimos meses, houve várias notícias sobre apreensões de "narcolanchas" ao largo da costa portuguesa, incluindo uma apreensão feita esta sexta-feira nas águas da Madeira. Este artigo procura explicar o que são estas embarcações, para que servem, quanto custam e porque têm aparecido cada vez mais em Portugal.

1. O que são estas embarcações?

São chamadas, tecnicamente, Embarcações de Alta Velocidade (EAV). O Decreto-Lei n.º 43/2026, de 16 de Fevereiro, que criou um regime jurídico próprio para este tipo de embarcações e que substituiu a legislação anterior, de 1990, aplica-se a qualquer uma com pelo menos quatro metros de comprimento, independentemente da potência dos motores, conforme se descreve num resumo publicado pela Ordem dos Advogados.

Na prática, as que têm sido apreendidas em Portugal costumam medir entre 8 e 14 metros, ter casco em fibra de vidro e ser equipadas com dois a quatro motores. Uma lancha apreendida pela Polícia Judiciária tinha 14 metros e quatro motores de 1.000 cavalos, o que lhe permitia atingir uma velocidade de cruzeiro de cerca de 80 nós, ou seja, perto de 150 km/hora. Segundo o director da Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes da PJ, Artur Vaz, é precisamente essa velocidade, associada à grande manobrabilidade, que torna estas embarcações particularmente difíceis de perseguir e interceptar.

Há ainda uma tecnologia mais sofisticada em expansão, que são os narcossubmarinos, capazes de transportar centenas de quilos e até várias toneladas de cocaína por viagem, com uma assinatura térmica e acústica muito mais reduzida do que a das lanchas. Ainda assim, as lanchas continuam a ser o meio mais comum nas águas portuguesas.

2. Para que servem exactamente?

Nem todas cumprem a mesma função. Os relatos das autoridades distinguem pelo menos dois tipos de uso.

Umas são usadas directamente no transporte ou no transbordo da droga. Vão ao encontro de embarcações maiores (barcos de pesca, cargueiros ou até narcossubmarinos) em alto mar, recolhem os fardos de cocaína ou haxixe e trazem-nos até à costa, evitando os portos comerciais e os seus controlos.

Outras funcionam como apoio logístico às primeiras. Por exemplo, em Maio de 2026, uma operação do Grupo de Acções Tácticas da Polícia Marítima interceptou, no estuário do Tejo, uma embarcação que transportava mais de 6,5 toneladas de combustível e mantimentos. As autoridades classificaram-na como estando destinada a "operações de suporte logístico marítimo de longa duração, a centenas de milhas da costa portuguesa". Esta função de apoio já é conhecida em Espanha há mais tempo, onde algumas organizações se especializaram no abastecimento de combustível, sobretudo na zona de Cádis e do Campo de Gibraltar.

Em Portugal, as apreensões de combustível associado a este tipo de apoio dispararam este ano. Segundo dados avançados ao Diário de Notícias pela Autoridade Marítima Nacional e divulgados pelo Sapo/DN, passou-se de cerca de 23 mil litros apreendidos em todo o ano de 2025 para mais de 96 mil litros só até meados de Setembro de 2026.

3. Quais são as principais rotas?

Existe essencialmente um grande corredor atlântico. Segundo Artur Vaz, citado pelo Público e pela CNN Portugal, a rota que atravessa os Açores, a Madeira e as Canárias, com desembarque na Península Ibérica, é hoje "a principal ameaça" que Portugal, Espanha e a Europa enfrentam no tráfico de droga. É por essa via que chega a cocaína vinda da América Latina, transportada em grandes quantidades por navios de maior porte e depois transferida para as lanchas mais perto da costa.

Há uma segunda rota, voltada para o haxixe, que liga o Norte de África, sobretudo Marrocos, ao sul de Portugal e de Espanha. Existe ainda uma terceira ligação, em sentido inverso. Uma investigação policial hispano-portuguesa, noticiada pelo Correio da Manhã, revelou que uma rede desmantelada usava lanchas construídas em Portugal para levar drogas sintéticas até à Argélia.

Dentro do território nacional, os pontos de desembarque mais referidos são o litoral algarvio, o rio Guadiana (fronteira com Espanha) e o estuário do Tejo, onde se estima, segundo um artigo do Jornal SOL, que possam circular diariamente duas a três embarcações ligadas a este tipo de logística.

4. Quanto custa uma destas lanchas?

Os valores variam muito consoante a época, o tamanho e o número de motores, mas os casos conhecidos dão uma ideia de grandeza. Uma organização desmantelada pela GNR, noticiada pelo Jornal de Notícias, tinha encomendado 18 lanchas a estaleiros do norte do país (em Viana do Castelo, Monção, Vila Nova de Cerveira e Valença), avaliadas em conjunto em cerca de oito milhões de euros. Trata-se de uma média superior a 400 mil euros por embarcação. Os 40 motores de alta potência apreendidos na mesma operação foram avaliados em cerca de dois milhões de euros. Um caso mais antigo, apreendido pela Polícia Judiciária, com quatro motores de mil cavalos, tinha sido avaliado em cerca de 200 mil euros.

Quanto às empresas construtoras, fabricar lanchas rápidas continua a ser legal em Portugal, ao contrário do que sucede em Espanha desde que este país proibiu genericamente o seu uso. É uma diferença que o próprio Governo português invoca, no diploma de 2026, como motivo para reforçar a lei nacional, segundo uma análise do Observador.

5. Porque aparecem cada vez mais em Portugal?

Aqui importa distinguir as fontes, porque os números não são todos iguais. Segundo o balanço oficial da actividade operacional de 2025, divulgado pela Autoridade Marítima Nacional e noticiado pelo DIÁRIO, a Polícia Marítima participou, em operações conjuntas de combate ao narcotráfico, na apreensão de cerca de 2,2 toneladas de droga e de 12 embarcações de alta velocidade ao longo daquele ano. Outro órgão de comunicação social avançou entretanto um número ligeiramente diferente, de 14 lanchas em 2025, atribuído também à Polícia Marítima. A diferença pode dever-se a critérios de contagem distintos. Por exemplo, operações conjuntas 'versus' total de apreensões da entidade policial.

O que é certo é que a tendência de subida em 2026 é reconhecida pelas próprias autoridades. O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) relativo a 2025 já apontava para a apreensão de 25 toneladas de cocaína e 15 de haxixe no ano anterior. E os números avançados por um órgão de comunicação social sobre 2026, ainda que não confirmados directamente numa fonte oficial, seguem a mesma direcção: há mais apreensões de embarcações do que no ano anterior.

Há várias explicações para este fenómeno. Desde logo, há um efeito de deslocação. O próprio Governo, no Decreto-Lei n.º 43/2026, justifica a nova lei com a necessidade de produzir "pelo menos idêntico efeito preventivo e sancionatório" ao regime espanhol, notando que "as novas rotas do tráfico começaram a ser gizadas a partir do momento em que Espanha proibiu genericamente a utilização de EAV", conforme resumido pelo Observador.

Por outro lado, verifica-se um reforço da fiscalização. Mais meios navais e aéreos no terreno tendem a traduzir-se em mais apreensões registadas, o que dificulta a comparação directa entre anos.

Há também que ter em conta as condições no mar. O bom tempo facilita as operações de descarga, o que tende a fazer subir os números durante os meses de Verão e início do Outono.