O barco das dezasseis e quarenta e cinco
Escrevo isto de uma ilha onde não há carros. Há areia onde costuma haver rua, há bicicletas encostadas às paredes sem cadeado nenhum, e há um barco que faz a ligação à terra em horários que toda a gente sabe de cor ao fim de dois dias. Quem perde o barco das dezasseis e quarenta e cinco fica. Não há discussão possível a menos que se vá de barco-táxi. Demorei anos a perceber que é exatamente isso que me faz bem. Venho ao Farol há dez anos, sempre por esta altura, sempre com os mesmos dois amigos. Setembro é o mês certo. Agosto levou consigo o barulho, a água ainda está boa, e a ilha devolve-se a si própria com uma calma que em agosto não existe. Ao décimo ano, já não sei bem se isto se chama férias. É outra coisa, mais parecida com um hábito antigo uma rotina boa.
Chegamos, largamos os sacos, e a conversa recomeça. Há piadas que já ninguém explica. Há uma história que um deles conta todos os anos com pormenores diferentes e que ninguém corrige, porque corrigir estragava. Fala-se muito, hoje em dia, da necessidade de desligar. Há retiros para isso, aplicações para isso, hotéis que prometem cofres para guardar o telemóvel à entrada. Transformámos o descanso numa indústria, com tabela de preços e época alta. Mas eu não venho ao Farol só para me desligar. Venho para me ligar a duas pessoas. A ilha trata da parte do desligar sozinha, sem me pedir licença. Há pouca rede em certos sítios, não há televisão que nos interesse, não há trânsito para justificar pressa. Ao fim de dois dias dou por mim a deixar o telemóvel em cima da cama a tarde inteira, sem lhe sentir falta nenhuma. O que sobra do dia é tempo. E é aí que acontece a parte importante. Os jogos de monopólio, o ritual do pôr do sol, as idas ao mercado de Olhão às 07:30 da manhã comprar marisco, as conversas intermináveis.
Porque as melhores conversas nunca são as primeiras. São as da quarta hora, quando já se falou do trabalho e já se discutiu o jantar, e de repente alguém diz uma coisa que não estava a planear dizer. Há assuntos que só saem assim, sem plano e sem hora marcada. Não cabem num almoço de sexta-feira em Lisboa, com o táxi a chegar às três. Aprendi com estas férias uma coisa que raramente se diz em voz alta, as amizades adultas não sobrevivem à boa vontade. Precisam de alguma organização. Precisam de uma data marcada, de um sítio combinado, de uma repetição teimosa que resista aos anos em que não dava jeito a ninguém. A partir dos trinta e cinco, as amizades entregues ao “temos de combinar qualquer coisa” acabam quase todas no mesmo sítio, que é em lado nenhum. Não é por falta de amor. É por falta de calendário. Nós marcámos uma data. E teimámos nela durante dez anos.
Houve setembros em que nenhum de nós tinha agenda, cabeça ou paciência para viajar. Viemos na mesma. E não me lembro de um único ano em que, no barco de regresso, algum de nós tenha dito que não tinha valido a pena e que “para o ano temos que vir mais tempo”. Nesses dez anos mudou muita coisa à nossa volta. A ilha ficou igual. Talvez seja esse o valor de voltar sempre ao mesmo sítio. Um cenário que não muda funciona como uma régua. Mostra-nos, sem grande delicadeza, o que aconteceu connosco desde a primeira vez que aqui pusemos os pés. Daqui a uns dias apanho o barco de volta e regresso a uma vida com carros, reuniões e notificações. Levo sol a mais e metade dos livros por ler. E levo isto, que já sei de cor mas continuo a precisar de vir cá confirmar todos os anos. O que me faz mais falta durante o resto do ano não é a praia. É ter alguém que me conhece há tempo suficiente para não ser preciso explicar o princípio da história.
Frases soltas:
Um conjunto de artistas portugueses decidiram dar nas vistas e cancelar as suas atuações no Festival Internacional de Comédia que haviam confirmado meses antes sob a pretensa ideia de que Jerry Seinfeld (cabeça de cartaz), que é judeu, não recrimina a guerra de Israel contra o povo palestiniano. É caso para perguntar, só agora às portas do espetáculo é que se lembraram disso?!
Circula por aí a informação de que neste Verão o número de passageiros que passaram pelo aeroporto de Lisboa registou um decréscimo que pode ser preocupante. Seja porque o Estado português vai gastar muito milhões do erário público na construção de um novo ou porque o País pode estar a começar a deixar de estar “na moda”. Com tantos portugueses dependentes direta ou indiretamente do Turismo, é esperar para ver se os números oficiais refletem essa tendência.