Será que trazem o segundo helicóptero quando praticamente já não existem incêndios?
O segundo helicóptero de combate a incêndios chegou esta quinta-feira, 24 de Setembro, à Madeira, depois de meses de atrasos e de sucessivas datas apontadas para a sua chegada. O reforço dos meios aéreos tinha sido anunciado para antes do Verão, mas acabou por chegar apenas no final de Setembro, ficando prevista a sua entrada em operação a partir de 1 de Outubro. Fica até 30 de Novembro.
A chegada tardia da aeronave está, entretanto, a suscitar comentários entre os leitores do DIÁRIO. “Trazem o segundo helicóptero quando praticamente não existem incêndios”, escreveu um leitor, colocando em causa a oportunidade da chegada do novo meio aéreo nesta altura do ano.
Mas será que praticamente não existem incêndios na Madeira nesta fase?
A resposta exige olhar para os números. Vamos, por isso, verificar os dados relativos às ocorrências registadas nas últimas semanas e compará-los com períodos anteriores, para perceber qual é, efectivamente, a realidade dos incêndios na Região. Consultamos para tal notícias da imprensa regional e também às estatísticas anuais e mensais do Serviço Regional de Protecção Civil.
Em Outubro de 2023, por exemplo, tivemos incêndios de dimensão significativa na Região. Num deles, o fogo deflagrou na freguesia dos Prazeres (concelho da Calheta) e alastrou-se rapidamente para o concelho vizinho do Porto Moniz. As chamas fustigaram zonas habitacionais e florestais, obrigando à activação do Plano Regional de Emergência e Protecção Civil. Vários fogos secundários activos em simultâneo na Ribeira Brava e Câmara de Lobos só foram totalmente extintos a meio do mês.
A Protecção Civil refere cerca de 1.800 profissionais mobilizados e 306 descargas aéreas. Incêndios urbanos / em áreas urbanizáveis foram 12.
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Só naquele mês foram contabilizados 65 incêndios em mato e 19 incêndios florestais. Números até superiores aos verificados em Agosto, em pleno Verão, quando foram registados 32 incêndios em mato e apenas 1 incêndio florestal. Incêndios urbanos / em áreas urbanizáveis foram 11.
Olhando atrás, em Janeiro daquele ano, pico do Inverno, somaram-se 25 incêndios em mato, mas não houve nenhum florestal. No mesmo mês, mas de 2024, os números subiram para 34 ocorrências em mato e 2 florestais.
Outro dos exemplos de como a época de incêndios na Região não se cinge ao Verão foi o incêndio que começou na madrugada de 3 de Fevereiro de 2020, na zona da Lombada Velha. Manteve-se activo durante cerca de três dias e alastrou por várias zonas de mato e floresta. Na altura, o fogo chegou a aproximar-se perigosamente de habitações, devido à ocupação dispersa do território.
Este incêndio motivou inclusive uma resolução da Assembleia Legislativa da Madeira – n.º 14/2020/M, de 25 de Março – que exortava o Governo da República a assegurar e financiar o meio aéreo de combate a incêndios florestais e de apoio durante todo o ano, a operar na Região Autónoma da Madeira.
“Os meios aéreos de combate a incêndios têm-se revelado fundamentais para combater os fogos florestais que surgem um pouco por todo o país. A comprovada eficácia destes meios é já, igualmente, uma realidade na Região Autónoma da Madeira, em virtude da aposta clara do Governo Regional e do Serviço de Proteção Civil em assegurar os meios técnicos e humanos necessários”, lia-se.
Por outro lado, se a análise for feita para o período que compreende o Inverno, é também possível registar várias ocorrências. Recuamos até ao ano de 2021, quando no mês de Janeiro registaram-se 28 incêndios. No mês seguinte, houve um aumento para 37 incêndios, sete dos quais em áreas florestais e os restantes em mato.
Já no ano seguinte, em 2022, os dados oficiais apontam para um mês algo atípico. No total foram 73 fogos, 65 dos quais em áreas de mato. Em Fevereiro, esse número decaiu para 41 fogos: 35 em mato e 6 incêndios florestais.
Rumamos então a 2023, que nos dois primeiros meses do ano registou números semelhantes. Foram apontados 25 incêndios em mato tanto em Janeiro como em Fevereiro.
Olhamos então para o ano de 2024 e, também aí, assiste-se a um aumento do número de fogos. Se em Janeiro houve um registo de 36 fogos, 34 dos quais em mato, já no mês de Fevereiro esse número subiu para 39, sendo que 38 foram em zonas de mato.
Em Janeiro do ano passado registaram-se 22 incêndios, todos em zonas de mato. No mês seguinte, em Fevereiro, o número decresceu para 14, igualmente em mato. Curiosamente, em Março do ano passado registaram-se apenas 3 incêndios em mato: dois no concelho de Câmara de Lobos e um outro em Santana.
Os dados mais recentes apontam para 16 incêndios em mato e 1 em zona florestal. Em Agosto último, os números sobem para 39 e 2 florestais.
E esta realidade não é tão pouco exclusiva da Região, que se debate com avisos do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) para o tempo quente, estando hoje mais de 70 concelhos das regiões Norte e Centro e do Algarve em perigo máximo de incêndio rural, num dia em que as temperaturas ultrapassam os 30 graus na generalidade do território.
Ainda hoje, em declarações aos jornalistas, também o presidente do Governo Regional fazia alusão à existência de incêndios ao longo de todo o ano.
Contas feitas, concluímos que a afirmação do nosso leitor é falsa. As épocas de Outono e Inverno registam, muitas vezes, tantas ou mais ocorrências que aquelas verificadas nos meses mais quentes.