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Fact Check Madeira

Em praticamente todos os anos há incêndios nas zonas altas do Campanário?

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Na manhã desta segunda-feira, um novo incêndio mobilizou vários meios para as zonas altas do Campanário. O fogo deflagrou no povoamento florestal do Lugar da Serra, tendo o alerta sido dado pelas 6h35. Foi o quarto incêndio identificado naquela área só neste mês de Setembro.

No passado dia 5, dois incêndios, separados por cerca de um quilómetro, deflagraram quase em simultâneo na Estrada do Lugar da Serra e na Estrada dos Terreiros. A propósito dessas ocorrências, um leitor questionou, no Facebook da RTP-Madeira, o que teria a zona da Trompica de “importante ou interessante” para ter incêndios “quase todos os anos”. Um comentário na linha de vários outros que têm sido formulados ao longo dos tempos.

Será verdadeira essa percepção?

Para verificar a afirmação, pesquisámos o arquivo do DIÁRIO, cruzando as expressões ‘incêndio’ e ‘fogo’ com ‘Lugar da Serra’, além de referências à Trompica e aos Terreiros. Foram excluídos incêndios em habitações, viaturas e outras ocorrências que não fossem fogos em mato ou floresta, assim como referências ao Lugar da Serra da Tabua e notícias repetidas sobre o mesmo incêndio.

O levantamento permitiu identificar pelo menos 48 incêndios entre 2009 e 21 de Setembro de 2026 na área do Lugar da Serra, Trompica e Terreiros. O número não deve ser entendido como o total oficial de incêndios ocorridos naquele território, mas como as ocorrências que foi possível identificar através das notícias publicadas.

O primeiro dado que sobressai é a regularidade. Dos 18 anos compreendidos entre 2009 e 2026, apenas num, 2016, não encontrámos qualquer incêndio naquela área. Ou seja, existem notícias de incêndios em 17 dos 18 anos, correspondentes a 94,4% dos anos analisados.

A distribuição não é, contudo, uniforme. Em 2009 foi identificado um incêndio. Em 2010 foram quatro, dois em 2011, quatro em 2012, dois em 2013, dois em 2014 e outros dois em 2015. Depois de 2016, sem qualquer ocorrência encontrada, foram identificadas três em 2017, cinco em 2018, duas em 2019, três em 2020, quatro em 2021, duas em 2022, três em 2023, três em 2024, duas em 2025 e quatro, até agora, em 2026.

Há, por isso, anos em que não se trata apenas da existência de um incêndio. 2018, com cinco ocorrências identificadas, é o ano com maior número, seguindo-se 2010, 2012, 2021 e 2026, todos com quatro.

Neste ano, a concentração ocorre precisamente agora. No dia 5 de Setembro foram registados dois incêndios, um na Estrada do Lugar da Serra e outro na Estrada dos Terreiros. Seguiram-se novas ocorrências a 17 e, agora, a 21 de Setembro. Assim, em pouco mais de duas semanas, foram identificados quatro incêndios nas zonas altas do Campanário.

Outra questão que procurámos esclarecer foi se os incêndios apenas atingem aquela zona ou se começam na mesma. A distinção é importante. O grande incêndio de Agosto de 2024, por exemplo, não começou no Lugar da Serra nem na Trompica. Deflagrou na Serra de Água e, devido à sua progressão, acabou por atingir aquela área.

Esse caso não é, porém, representativo da generalidade das ocorrências encontradas. Na maioria das notícias em que é possível determinar geograficamente a origem, os incêndios são descritos como tendo deflagrado ou sido inicialmente detectados no próprio Lugar da Serra, Trompica ou Terreiros. Noutros casos, sobretudo nos mais antigos, a informação publicada não permite determinar com segurança o ponto exacto onde começou o fogo.

Também não estamos perante um fenómeno exclusivamente associado aos meses mais quentes. Há incêndios identificados em Janeiro, Fevereiro, Março, Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro, Outubro e Dezembro. Existe uma maior concentração no Verão e início do Outono, mas o histórico revela ocorrências em diferentes épocas do ano.

O mesmo acontece quanto à hora. Há incêndios que começaram durante o dia e outros durante a noite ou madrugada. Entre estes últimos estão ocorrências em Agosto e Setembro de 2010, Outubro de 2017 e 2019, Março e Agosto de 2020, Março de 2021, Setembro de 2022, Outubro de 2023, Agosto de 2025 e, neste mês, os incêndios de 17 e 21 de Setembro.

A existência de incêndios nocturnos ou de vários fogos em períodos muito próximos pode levantar suspeitas sobre a sua origem. Em alguns episódios foram mesmo manifestadas publicamente suspeitas de fogo posto. Isso aconteceu, por exemplo, em Março de 2021, quando dois incêndios praticamente simultâneos mobilizaram os bombeiros no Lugar da Serra.

Contudo, a repetição dos incêndios, a hora a que começam ou a existência de focos próximos não permitem, por si só, concluir que tenham origem criminosa. Para isso seria necessário conhecer as conclusões das investigações às causas de cada ocorrência. Assim, a afirmação feita posteriormente na mesma troca de comentários de que naquela zona “é sempre fogo posto” não pode ser confirmada por este levantamento.

Já a afirmação que está na origem deste fact-check encontra sustentação no histórico consultado. Entre 2009 e 2026 foram identificados incêndios nas zonas altas do Campanário em 17 dos 18 anos analisados e, no total, pelo menos 48 ocorrências. Só em 2016 não encontrámos qualquer registo. Assim, a afirmação de que a zona tem incêndios “quase todos os anos” é avaliada como verdadeira.

“O que de Importante ou Interessante tem a zona da Trompica para quase todos os anos ter incêndio?” – S. Sousa, no Facebook da RTP-Madeira, sobre incêndio de 5 de Setembro