Novo Atlas mostra que mulheres são mais religiosas do que homens em toda a Europa
Os níveis de religiosidade divergem de país para país europeu, mas em todos as mulheres são mais religiosas do que os homens, segundo o novo Atlas das Atitudes Sociais, apresentado hoje, que congrega indicadores sociais.
A plataforma foi desenvolvida pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, em articulação com o PASSDA - Produção e Arquivo de Dados de Ciências Sociais, infraestrutura portuguesa dedicada à recolha e divulgação de dados sobre atitudes e comportamentos sociais e políticos.
De acesso público, permite explorar atitudes sobre trabalho, família, bem-estar, religião, política, imigração, sustentabilidade e valores na Europa.
Em entrevista à Lusa, o sociólogo e investigador Pedro Magalhães, um dos responsáveis pelo projeto, explicou que, apesar das diferenças de religiosidade entre países, as mulheres apresentam valores superiores aos homens nos vários indicadores analisados.
"É maior a percentagem de mulheres que acreditam em Deus, que acreditam no céu, que acreditam no inferno, que dão mais importância à religião na sua vida e que frequentam e participam em serviços religiosos com mais regularidade", afirmou.
A diferença mantém-se entre sociedades tão distintas como a Polónia, onde a religiosidade é elevada, e a República Checa, onde é bastante mais baixa.
"É sempre verdade que as mulheres são mais religiosas do que os homens", salientou, dando este como exemplo das "histórias com dados" que a plataforma disponibiliza para mostrar diferenças entre países e grupos sociais.
Outro dos temas analisados é a imigração e, em Portugal, os dados revelam uma mudança de tendência.
Segundo Pedro Magalhães, desde o início do século registou-se uma opinião progressivamente mais favorável à imigração e à entrada de imigrantes, mas essa tendência inverteu-se a partir de 2019.
A opinião favorável à entrada de imigrantes e a avaliação positiva dos efeitos da imigração diminuíram desde então, embora sem regressarem aos níveis do início do século.
Na Hungria, exemplificou, o ceticismo em relação à entrada de imigrantes tem sido muito superior ao registado em Portugal e manteve-se relativamente estável, enquanto a Alemanha apresenta, em alguns indicadores, uma evolução semelhante à portuguesa.
O Atlas foi criado para tornar acessível ao público informação que já existe e é utilizada por investigadores, mas que permanece em grande medida afastada do debate público.
"Se quisermos saber a taxa de desemprego ou o crescimento económico, nós vamos ao 'site' do INE ou vamos à Pordata e ficamos a saber", explicou, contrapondo que não existe a mesma facilidade para perceber como evoluem as atitudes e valores dos europeus.
A plataforma permite comparar países, acompanhar mudanças ao longo do tempo e identificar diferenças em função do sexo, idade ou escolaridade.
Numa primeira fase, reúne informação de dois grandes projetos: o Inquérito Social Europeu, realizado de dois em dois anos e em que Portugal participa desde 2012, e o Estudo Europeu dos Valores, iniciado nos anos 1980 e no qual Portugal participa desde a década de 1990.
Apesar de os dados serem públicos, o seu tratamento exige conhecimentos especializados, pelo que o objetivo foi apresentá-los de forma simples e visualmente acessível.
A plataforma será atualizada à medida que forem divulgados novos dados destes estudos, estando também previsto acrescentar informação de outros projetos comparativos europeus.
Segundo Pedro Magalhães, a ferramenta tem três grandes objetivos: facilitar aos cidadãos o conhecimento das sociedades europeias, apoiar o ensino e servir de ponto de partida para novas investigações académicas.
O Atlas permite ainda confrontar afirmações feitas no debate público sobre aquilo que "os portugueses acham" ou "os europeus acham" com os resultados dos estudos.
"É possível confrontar essas afirmações, essas ideias, essas narrativas com dados mais factuais", afirmou.
Nas escolas, poderá ser utilizado de forma semelhante à consulta de indicadores no INE ou na Pordata, mas para analisar opiniões, crenças e valores.
Para os investigadores, permitirá observar rapidamente grandes tendências e comparações, que poderão suscitar novas perguntas e linhas de investigação.
A ambição, resumiu Pedro Magalhães, é permitir conhecer melhor Portugal e as restantes sociedades europeias através da evolução das opiniões, atitudes, convicções e crenças dos cidadãos.
A Plataforma é apresentada hoje, às 11:00, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.