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Madeira

Os genes funcionam como "as nossas instruções"

No entanto, conforme sublinha Marta Zegre Amorim, o ambiente também tem um papel importante na forma como cada indivíduo responde

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Marta Zegre Amorim, especialista em Genética Médica,  apresentou, hoje, no Museu da Electricidade da Madeira, o livro 'O Que os Genes Dizem sobre Mim', numa sessão que procurou aproximar o conhecimento científico do público e mostrar de que forma a informação genética pode contribuir para uma melhor gestão da saúde.

A obra, publicada pela Contraponto, nasceu também da vontade da autora de tornar a genética mais compreensível. "Eu acho que o que falta muito na genética é literacia", afirmou, explicando que pretende que as pessoas compreendam melhor "qual é o impacto que isto pode ter em nós" e de que forma podem utilizar essa informação para tomar decisões relacionadas com a saúde.

Questionada sobre o significado do título do livro, a médica explicou que os genes funcionam como "as nossas instruções". Cada pessoa herda informação genética dos dois progenitores e é a partir dessas instruções que o organismo funciona. No entanto, sublinha, o ambiente também tem um papel importante na forma como cada indivíduo responde. "Se o conhecermos, conseguiremos de certeza responder melhor e ter mais saúde", defendeu, referindo-se ao conhecimento do património genético de cada pessoa.

Filha de professores primários, Marta Zegre Amorim diz ter desenvolvido desde cedo uma ligação à transmissão de conhecimento de forma simples. "O passar a informação de forma descomplicada sempre foi uma paixão muito grande", afirmou, explicando que uma das suas preocupações é fazer com que a genética "deixasse de ser um bicho-papão, deixasse de meter medo".

Para a especialista, conhecer a história familiar pode ser determinante na prevenção de doenças. Dá como exemplo as famílias com histórico significativo de cancro, em que um teste genético pode indicar a necessidade de iniciar a vigilância mais cedo. "Conhecimento de facto é poder, sublinhou.

A genética pode também ajudar famílias que enfrentam doenças ou problemas de saúde numa criança. Segundo a médica, os estudos genéticos permitem determinar o risco de uma situação voltar a acontecer numa futura gravidez e, em alguns casos, disponibilizar medidas para reduzir esse risco.

Marta Zegre Amorim considera, por isso, que a genética está a ultrapassar o papel de simples ferramenta de diagnóstico, com o aparecimento de novas terapias e de uma medicina cada vez mais personalizada.

A relação da médica com a Madeira é também particularmente próxima. Marta Zegre Amorim exerce actividade na Região e coordena a consulta de Genética Médica desde Janeiro de 2019. "Sou a única médica de genética cá desde Janeiro de 2019", explicou, acrescentando que regressa à Madeira todos os meses para realizar consultas.

A apresentação do livro na Região surgiu, assim, como uma forma de partilhar este trabalho com pessoas com quem criou uma relação ao longo dos anos. "Gosto muito das pessoas com quem trabalho cá", afirmou, acrescentando que sente já ter na Madeira "uma família".

A experiência profissional da médica na Região revela também um crescimento significativo da procura por acompanhamento especializado.

Marta Zegre Amorim recorda que, quando iniciou a consulta, encontrou cerca de 140 pedidos de consulta acumulados. Actualmente, desloca-se à Madeira todos os meses e realiza cerca de 80 consultas por mês, mas a lista de pedidos terá entretanto aumentado para cerca de 1.100. "Eu tenho cada vez mais pedidos", afirmou.

Para a especialista, este crescimento demonstra que tanto os doentes como os profissionais de saúde estão cada vez mais conscientes da utilidade da genética na avaliação e acompanhamento dos casos. "As famílias madeirenses têm muita vontade de saber mais sobre os seus genes", concluiu.

A médica espera ainda que o livro contribua para aumentar essa procura por conhecimento. "Quanto mais sabemos, mais queremos saber", afirmou, defendendo que a obra deve trazer respostas, mas também "mais perguntas" e estimular a curiosidade do público.

A apresentação do livro contou com a intervenção de Pedro Ramos, que destacou o contributo da especialista para a área da Genética Médica na Região e a importância crescente desta área para o futuro da saúde.

Pedro Ramos, na qualidade de profissional da área, começou por sublinhar a ligação profissional de Marta Zegre Amorim à Madeira e o trabalho desenvolvido na Região, considerando tratar-se de uma "colaboração de enorme qualidade e excelência para o nosso Serviço Regional de Saúde".

Na sua intervenção, procurou enquadrar a importância da genética e das novas ferramentas disponíveis na medicina, defendendo que o conhecimento adquirido nesta área permite tomar decisões cada vez mais ajustadas às características individuais de cada pessoa.

Para Pedro Ramos, a obra surge num momento particularmente relevante para a evolução da medicina. "Este livro vem no timing perfeito para poder conhecer mais, para ter que utilizar a lei para decidir", afirmou, numa intervenção centrada na importância da informação e do conhecimento.

Destacou igualmente a relação entre genética e aquilo que classificou como uma medicina de precisão, apontando para a possibilidade de conhecer melhor as causas das doenças, identificar fatores de risco e actuar mais cedo. "A primeira mensagem deste livro [...] é de facto um livro que permite decidir melhor", afirmou.

Na sua perspectiva, o desenvolvimento da genética permitirá uma maior capacidade de compreender os riscos individuais e melhorar as respostas médicas. “A genética é intrigante, mas também uma maravilha. Acima de tudo fornece mais informação individual, colectiva”, referiu.

Defendeu ainda que a informação genética poderá contribuir para intervenções mais precoces e para tratamentos cada vez mais personalizados, com o objectivo de alcançar melhores resultados e reduzir efeitos adversos.

Outro dos pontos destacados por Pedro Ramos foi a relação entre conhecimento e responsabilidade. Ao abordar a evolução científica e tecnológica das últimas décadas, considerou que o acesso à informação aumenta também a capacidade de cada pessoa participar nas decisões relacionadas com a sua saúde. "A informação, o conhecimento, o conhecimento para melhor poder decidir", resumiu.

Na sua intervenção, chamou ainda a atenção para a importância de compreender que uma alteração genética não significa necessariamente uma doença hereditária. Recuperando exemplos abordados por Marta Zegre Amorim no livro, salientou a complexidade da relação entre genética, doenças e hereditariedade. "As genéticas explicam muitas doenças, mas não são hereditárias", citou da autora.

Para Pedro Ramos, 'O Que os Genes Dizem sobre Mim' assume importância não apenas para profissionais de saúde, mas também para doentes e famílias, ao permitir explicar conceitos complexos numa linguagem mais acessível.

A sessão terminou com uma valorização do papel da médica na Região e do contributo que tem dado à Genética Médica. 

'O Que os Genes Dizem sobre Mim' encontra-se disponível nas livrarias.