Pequenas mudanças hoje, grandes conquistas amanhã

Eu escrevo modestos textos, sem pretensões, exprimindo apenas o meu legítimo parecer, num português que é meu, sem recurso à IA e creio que acessível ao mais comum dos mortais, que o queira ler. Há, porém, os que em vez de escrever gatafunham e em vez de falar quando se faz necessário, “rosnam” ou “zurram”. Peço desculpa pela crueza dos termos. Infelizmente, passou-se da tasca para as redes sociais, mas as conversas e linguagem habitualmente usadas são as mesmas. Há, também, os que falam pelas costas, porque sendo confrontados talvez tivessem de responder pelo que dizem. Por outro lado, há silêncios que, porventura, não são inocentes. Ou talvez não sejam silêncios, mas desinteresse selectivo.

Prega-se os valores da honra, da moral e da ética, mas a realidade é bem outra. Não é preciso ter um QI extraordinário para perceber que as pessoas pressionadas pela subida exponencial do custo de vida, pelos magros salários e reformas miseráveis estão insatisfeitas. E esmolas pontuais não são a solução. No que nos toca (porto-santenses) em particular, o diagnóstico não é novo: envelhecimento populacional, fragilidade económica imposta pela nossa condição de dupla insularidade e de destino sazonal e, sobretudo, a dificuldade no acesso a serviços imprescindíveis em termos de Saúde, nomeadamente a cuidados diferenciados aqui não existentes. O lugar onde se vive nunca poderia determinar , obstar ou dificultar o acesso à Saúde.

Toda a gente sabe mas, com maior conhecimento de causa, os utentes/doentes que necessitam de cuidados específicos, independentemente da respectiva patologia, que se deslocam com alguma regularidade e frequência às Unidades de Saúde da Madeira. Toda a gente conhece os constrangimentos que essas deslocações envolvem, desde os “papelinhos” exigidos para tudo e mais alguma coisa, às viagens de barco ou de avião, até ao alojamento disponibilizado, quando é caso disso. Já estivemos em pior situação, é verdade, mas estamos ainda longe do bom. Que o diga quem, por infelicidade, disso precisa. O doente não é um preço nem elemento para produção estatística. O doente tem dignidade. Em Saúde o valor mede-se pelas vidas salvas e pela Esperança que se devolve, nunca por aquilo que se poupa. E, acreditem, na presença de determinadas atitudes e regras rigorosamente seguidas para não ferir protocolos instituídos, é disso que se trata. Poupar. Sei do que falo, porque já dei para esse peditório. Os doentes não precisam de promessas vãs. Precisam de sentir todos os dias melhor acesso, mais segurança, qualidade e humanidade. Atrás de secretárias e ecrãs de computadores e não se ouvem os gritos surdos de quem sofre, e é fácil opinar e falar das escolhas e comportamentos doutrem, quando não se passou nem passa pelo mesmo. Parece até que para se tratar e ou morrer com dignidade é obrigatório ter dinheiro.

Promessas, atenção mediática e discursos de boas intenções não resolvem problemas. É preciso acção. A ignorância é uma condição comum a todos nós, pois somos ignorantes daquilo que não sabemos, mas passamos a arrogantes quando recusamos admitir que há sempre mais que podemos fazer e assobiamos para o lado, numa situação que reclama urgência de atuação.

Reconheço que pedir a multiplicação dos pães quando não há farinha ou alguma farinha precisa de ser mudada é quase um milagre. Mas milagres acontecem se houver vontade, organização, empatia e humildade. Não procuro louros, nem sequer aprovação de ninguém. Faço-o, do modo que disponho, porque não fico indiferente à vulnerabilidade de pessoas em sofrimento, sem força anímica e com algum receio de reclamar os seus direitos.

Que a saúde seja sempre o bem maior de cada um de nós e que as mudanças de hoje sejam grandes conquistas amanhã.

Madalena Castro