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Venezuela sem mudança, "em ruínas" e sob "relação quase colonial"

A escritora e jornalista Karina Sainz Borgo lança novo romance, intitulado"Nazarena"

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A escritora e jornalista venezuelana Karina Sainz Borgo considera que o seu país continua "em ruínas" e que a intervenção dos Estados Unidos e de Donald Trump veio acrescentar "mais um predador" ao regime autoritário que governou a Venezuela.

"Receio que a impressão inicial ou a primeira imagem que se tem do país continue a ser a mesma, continua a ser um local em ruínas. Na verdade, é ainda pior porque, digamos, com a intromissão dos Estados Unidos e de Donald Trump na realidade política, abre-se uma nova janela que representa mais um predador", afirmou a escritora em entrevista à agência Lusa, a propósito do lançamento do novo romance, "Nazarena", editado pela Alfaguara.

Para Karina Sainz Borgo, "ao predador original - que é um regime autoritário que não respeita a vida humana - junta-se agora um outro regime autoritário", liderado por Donald Trump, que a escritora descreve como "um homem que age como um empresário" movido sobretudo interesses económicos.

Por isso, a autora de "Cai a noite em Caracas" e "O terceiro país" estabelece um paralelo histórico com a influência exercida pela United Fruit Company na América Latina, aquando do golpe de Estado na Guatemala, em 1954.

"O pesadelo da United Fruit Company alastrou-se ao setor petrolífero e nem sequer a mudança para a democracia o impediu. Ou seja, nem sequer parecemos um protetorado, parecemos uma colónia. Temos uma relação quase colonial e isso é muito preocupante", considerou.

A escritora manifestou igualmente preocupação com as consequências que uma eventual intervenção militar norte-americana na Venezuela poderia ter para outros países da região, criando um "precedente".

Apesar disso, Karina Sainz Borgo não poupa Nicolás Maduro, que classifica como sendo "claramente um assassino e um criminoso", mas defende que seja julgado pelas acusações que sobre ele recaem e em condições que permitam apurar responsabilidades.

"Permitam-nos julgá-lo em condições diferentes, julgá-lo pelas acusações que lhe são imputadas, e não pelo facto de ser um traficante de droga", defendeu, acrescentando ter dúvidas de que esse julgamento alguma vez chegue a acontecer.

A escritora referiu ainda os dois sismos que atingiram a Venezuela em junho, causando milhares de mortos e desaparecidos, como mais um acontecimento a juntar-se a um país que descreve como "devastado".

Karina Sainz Borgo, que vive em Espanha desde 2006, tem feito da Venezuela o território central da sua ficção, mais direta ou indiretamente, explorando temas como a expulsão do país, a fronteira, o desenraizamento, a perda, a memória e a relação com o país de origem.

Em "Cai a noite em Caracas", o seu primeiro romance, publicado em 2019, retratou um país em desagregação que expulsa os seus habitantes, enquanto em "O terceiro país" (2023) deslocou a narrativa para uma região fronteiriça marcada pela migração, pela morte e pela procura de um lugar onde enterrar os mortos.

Em "Nazarena", que chega às livrarias portuguesas no dia 21, a Venezuela deixa de ser explicitamente nomeada, mas, segundo a autora, permanece refletida numa história familiar, em que a casa funciona também como metáfora de um país e de uma sociedade.