A pista do RG3 está prometida desde 1988?
Bastou os vereadores Luís Filipe Santos e Jorge Afonso Freitas trazerem novamente para cima da mesa o projecto da pista de atletismo no Regimento de Guarnição n.º 3 para vários leitores se juntarem ao debate. Entre dúvidas, críticas e recordações, um deles foi mais longe: garante que já ouvia falar desta possibilidade em 1988 e conclui que “a saga continua”.
A afirmação altera por completo a idade da promessa. Se estiver correcta, a pista não é apenas um compromisso político recuperado durante a campanha eleitoral de 2025, nem uma reivindicação formalizada através de uma petição em 2014. É uma história com 38 anos, e uma das mais longas sagas do desporto regional.
Portanto, será mesmo verdade que, em 1988, já estava prometida uma pista de atletismo nos terrenos militares de São Martinho? O primeiro dado encontrado obriga a colocar um travão na afirmação: nessa altura, o Regimento de Guarnição n.º 3 ainda não existia com esta designação. O RG3 só foi criado a 1 de Outubro de 1993, através da integração do Regimento de Infantaria do Funchal e do Grupo de Artilharia de Guarnição n.º 2.
As instalações militares já existiam e eram ocupadas pelas unidades que viriam a dar origem ao actual regimento. Por isso, não pode ser totalmente excluída a hipótese de, em 1988, terem existido conversas informais sobre a construção de uma pista naquele espaço. Até ao momento, porém, não foi localizado qualquer documento, notícia, projecto ou deliberação da época que confirme essa promessa.
O primeiro rasto documental seguro aparece a 21 de Outubro de 2014. Nesse dia, a Associação de Atletismo da Região Autónoma da Madeira lançou uma petição pública dirigida ao chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, pedindo a disponibilização de um terreno do RG3 para a construção de uma pista de atletismo.
A petição reuniu 1.650 assinaturas e identificava expressamente o espaço militar como solução para devolver ao Funchal uma infra-estrutura que desaparecera com a transformação do Estádio dos Barreiros. O documento lembrava ainda que naquele terreno já eram realizadas disciplinas de lançamento e defendia a sua abertura aos atletas e à população.
A necessidade de encontrar uma alternativa, contudo, já era pública antes da petição. Em 2010, a perda da pista dos Barreiros foi invocada numa acção popular contra a cedência do estádio ao Marítimo. A transformação daquele recinto deixara clubes, atletas e praticantes sem uma pista equivalente no concelho.
Egídio Olim, actual presidente da Associação de Atletismo da Madeira, também situa em 2014 o momento em que a solução do RG3 começou a ganhar verdadeira expressão pública.
“Começámos a falar disto em 2014. A questão começou a vir cá para fora e a ter sentido a partir do momento em que houve a demolição da pista dos Barreiros”, afirma. O dirigente recorda que chegou a realizar-se uma apresentação nas instalações militares, com a presença de responsáveis regionais ligados ao desporto. A associação apresentou igualmente um esboço daquilo que pretendia ver construído.
E o DIÁRIO trouxe na sua edição de 19 de Março de 2019 o antes e o depois do Estádio do Marítimo em 28 imagens onde é possível ver o velhinho estádio com a pista de atletismo.
A antiga reivindicação regressou à agenda política em Setembro de 2025, quando Jorge Carvalho anunciou uma parceria entre o Exército, o Governo Regional e a Câmara Municipal do Funchal. Pouco depois, o então responsável pelo RG3, Musa Paulino, confirmou que as conversações já decorriam havia alguns meses.
Egídio Olim garante que o processo continua em andamento e diz ter participado em reuniões com responsáveis políticos e militares. Segundo explica, a operação envolve o Exército, enquanto proprietário do terreno, e a Câmara do Funchal e o Governo Regional ao nível da concretização e do financiamento.
A solução deverá contemplar uma pista regulamentar com, em princípio, oito corredores. A associação espera que seja inscrita uma verba no próximo orçamento, permitindo acelerar o processo em 2027. O objectivo é inaugurar a pista em 2028, embora Egídio Olim admita que a conclusão possa passar para 2029.
Ainda não é conhecido publicamente se o protocolo entre as três entidades foi assinado. Também não foram divulgados o projecto definitivo, o custo, a repartição do investimento ou um calendário oficial.
É possível que a hipótese de construir uma pista nos terrenos militares já circulasse em 1988, mas não há, até agora, documentação que o confirme. O que está comprovado é que a solução do RG3 foi formalmente reclamada em 2014. A promessa pode não ter 38 anos, mas a reivindicação documentada aproxima-se dos 12 — e a pista continua por construir.