É a primeira vez que Miguel Albuquerque defende o uso de gado na prevenção dos incêndios?
O recurso a animais para controlar a vegetação e reduzir a quantidade de combustível disponível em áreas florestais, contribuindo para a prevenção de incêndios, voltou a estar no centro do debate político regional.
Pastoreio controlado para evitar regresso das infestantes
O Governo Regional quer transformar o pastoreio ordenado numa ferramenta permanente de prevenção de incêndios nas áreas florestais intervencionadas, procurando evitar que terrenos limpos com dinheiro público voltem a ficar cobertos por vegetação inflamável poucos anos depois.
Ontem, a discussão ganhou novo impulso depois de Miguel Albuquerque ter defendido a utilização de pastoreio controlado em terrenos sujeitos a intervenções de limpeza. Mas será esta a primeira vez que o presidente do Governo Regional defende esta medida? É isso que vamos verificar nesta rubrica.
O pastoreio de gado nas serras da Madeira tem sido uma questão politicamente controversa, sobretudo desde a retirada de animais de determinadas áreas florestais, na década de 90 do século passado, e a discussão sobre a necessidade de regulamentar o pastoreio.
Em 2018, por exemplo, Miguel Albuquerque já afirmava que o Governo Regional defendia o pastoreio ordenado, rejeitando a ideia de que o Executivo fosse contra a presença de gado nas serras. Contudo, em 2019, durante a campanha para as eleições regionais, a posição atribuída a Albuquerque pelo PS era bastante diferente.
Em 2023, durante a discussão parlamentar de uma proposta socialista sobre o pastoreio, a deputada Sílvia Silva recordou que, em 2019, o então candidato à presidência do Governo tinha afirmado que quem queria pastoreio nas serras não deveria votar nele. A mesma declaração foi novamente recuperada pelo PS em 2024, no debate político sobre o regresso do gado às serras.
PS desafia Albuquerque a aprovar proposta sobre pastoreio
Socialistas defendem que o pastoreio dirigido deve ser integrado na prevenção de incêndios
Erica Franco , 26 Agosto 2026 - 18:01
A evolução do discurso torna-se mais evidente a partir de 2023. Depois dos grandes incêndios desse ano, Miguel Albuquerque admitiu, em Outubro, o alargamento das áreas de pastoreio e afirmou que o gado organizado nas serras poderia constituir uma forma de minimizar os impactos dos incêndios florestais. Na altura, o presidente do Governo apontou o pastoreio como uma solução de baixo custo para ajudar a controlar a vegetação e reduzir a carga combustível.
Poucas semanas depois, a utilização do gado na prevenção de incêndios chegou ao Parlamento Regional. O PS apresentou um diploma que previa a criação de um regime jurídico para o pastoreio na Região e um projecto-piloto de pastoreio dirigido à prevenção de incêndios rurais. A proposta contemplava a utilização dos animais nas zonas corta-fogo para a limpeza de material combustível e previa compensações aos proprietários do gado em função das áreas limpas.
Sandra S. Gonçalves , 24 Junho 2026 - 17:42
A proposta socialista acabou rejeitada na generalidade. A votação ocorreu a 29 de Novembro de 2023, com PSD, CDS-PP, Chega e PAN a votarem contra, enquanto PS, JPP, PCP, Iniciativa Liberal e Bloco de Esquerda votaram a favor. Foi precisamente este chumbo que foi recordado, ontem, pela deputada socialista, quando desafiava o líder do Executivo regional a fazer aprovar a proposta socialista de revisão do regime silvopastoril que foi entregue recentemente no parlamento madeirense.
A rejeição do diploma não significou, contudo, que o tema tivesse desaparecido da agenda do Governo. Pelo contrário, o próprio Albuquerque continuou a defender o pastoreio ordenado como instrumento de gestão da vegetação. E, em 2026, a utilização de animais começou a ser concretizada em áreas específicas.
Gado ajuda a limpar faixas corta-fogo no Monte
Cerca de 300 cabeças de gado integram intervenção em 66,5 hectares
Orlando Drumond , 24 Março 2026 - 17:02
Em Março, cerca de 300 cabeças de gado, sobretudo ovelhas, estavam a ser utilizadas numa área de 66,5 hectares da faixa corta-fogo do Caminho dos Pretos, no Monte. A intervenção foi apresentada pelo Governo Regional como uma forma de controlar a vegetação e reduzir o risco de incêndios. Na ocasião, Albuquerque afirmou que o gado dava um contributo importante para a limpeza das infestantes e defendeu o alargamento da estratégia a outras zonas.
Em Junho, o modelo foi também apontado para os terrenos envolventes ao Hospital dos Marmeleiros, onde 40 ovelhas e cinco cabras foram colocadas numa área delimitada de cinco hectares para ajudar a controlar a vegetação. O próprio Governo apresentou a iniciativa como uma das medidas de prevenção de fogos florestais e Albuquerque destacou a redução dos custos associados às operações de limpeza e corte.
Ovelhas e cabras ajudam a limpar mato e a prevenir fogos junto ao Hospital dos Marmeleiros
O pastoreio controlado, envolvendo 40 ovelhas e cinco cabras, está a contribuir para a limpeza de mato numa área com cinco hectares nas imediações do Hospital dos Marmeleiros. É uma das várias medidas que o Governo Regional está a implementar no âmbito da estratégia de prevenção de fogos florestais. “Temos uma cooperação muito boa com a associação de criadores. Toda a gente fica a ganhar”, afirmou o presidente do Governo, Miguel Albuquerque, que, esta manhã, esteve no local a verificar a intervenção em curso, acompanhado da secretária regional da Saúde e Protecção Civil, Micaela Freitas, bem como de outros responsáveis.
O assunto voltou agora a ganhar expressão política. Ontem, Miguel Albuquerque afirmou que o Executivo pretende transformar o pastoreio ordenado numa ferramenta permanente nas áreas florestais que sejam alvo de intervenções de limpeza. A ideia passa por vedar determinados terrenos e, depois da remoção das infestantes, permitir a entrada controlada de animais, evitando que a vegetação volte a crescer rapidamente e obrigue a repetir as operações de limpeza. O Governo anunciou também a intenção de adquirir vedações e portões para esse efeito.
Perante esta evolução, podemos concluir que não é a primeira vez que Miguel Albuquerque defende o uso de gado na prevenção dos incêndios, pelo que considerados essa premissa falsa.
Embora a posição de Miguel Albuquerque sobre a presença de gado nas serras tenha sofrido uma evolução ao longo dos anos, não foi só agora o presidente do Governo Regional defendeu a utilização de animais como instrumento de prevenção de incêndios. Essa posição tem sido explicitamente apontada pelo menos desde Outubro de 2023, quando Albuquerque admitiu o alargamento das áreas de pastoreio e apontou o gado organizado como uma forma de minimizar os impactos dos incêndios.