Investigadores portugueses criticam tese de doutoramento de Francisco Gomes
Trabalho académico, dedicado à autonomia da Madeira, é alvo de críticas por alegada proximidade ao período de governação de Alberto João Jardim, avançou o Jornal Expresso
A tese de doutoramento do deputado Francisco Gomes, do Chega, dedicada à autonomia da Madeira, é alvo de fortes críticas de investigadores portugueses ouvidos pelo Jornal Expresso, que apontam insuficiências metodológicas, falta de distância analítica e uma alegada proximidade excessiva ao objecto de estudo.
Intitulada 'A Autonomia na Madeira (Portugal): Definição, origens, evolução e desafios', a investigação foi apresentada em 2019 na Universidade de Cádis e tem cerca de 300 páginas. Segundo o Expresso, a tese faz mais de 300 referências a Alberto João Jardim, incluindo 49 citações das memórias do antigo presidente do Governo Regional.
Jorge Fernandes, investigador do Conselho Superior de Investigação Científica, em Madrid, considera que o trabalho “parece mais um artigo de propaganda” e entende que a investigação se aproxima mais de “um pedaço de mau jornalismo” do que de uma tese académica, devido ao destaque dado ao período de governação de Jardim. Outro investigador de uma universidade portuguesa, que falou sob anonimato com o jornal, aponta igualmente a falta de “distância analítica em relação ao objecto de estudo” e questiona a fundamentação de várias das afirmações apresentadas na investigação.
Entre as críticas apontadas está também a forma como são utilizadas algumas referências bibliográficas. O Expresso dá como exemplos obras de Vladimir Lenine, estudos sobre comunidades indígenas mapuche e literatura relacionada com estudos LGBT e serial killers, utilizadas para sustentar diferentes argumentos sobre a história e a autonomia da Madeira.
Os investigadores questionam ainda a ausência, na tese, de uma pergunta de investigação claramente formulada, de uma teoria estruturante e de hipóteses testáveis. É também criticada a utilização do conceito de “madeirocentrismo” como ponto de partida, sem que, segundo a análise citada pelo jornal, algumas das premissas sobre a sociedade madeirense sejam devidamente sustentadas por evidência empírica.
A tese aborda igualmente a ascensão de Miguel Albuquerque à liderança do PSD-Madeira, atribuindo-a, entre outros factores, à conjugação de interesses de opositores de Alberto João Jardim, forças ligadas à Maçonaria e grupos económicos regionais. Segundo o Expresso, algumas destas afirmações não são acompanhadas de bibliografia específica que as sustente.
Francisco Gomes foi militante do PSD e exerceu funções na Administração Pública Regional antes de chegar ao Parlamento. Foi deputado social-democrata entre 2014 e 2015 e regressou à Assembleia da República em 2024, já eleito pelo Chega, sendo novamente eleito em 2025.
O Expresso refere ainda que Francisco Gomes concluiu a licenciatura em Ciência Política e Comunicação na Universidade de Denison, nos Estados Unidos, com o apoio financeiro do Governo Regional, e obteve posteriormente um mestrado na Universidade de Oxford. A Universidade de Harvard confirmou ao jornal não ter registo de que o deputado tenha concluído ali um grau académico.
A orientação da tese coube a Julio Pérez Serrano, professor da Universidade de Cádis, e à historiadora Ana Sofia Ferreira, da Universidade do Porto. Segundo o Expresso, nenhum dos dois respondeu às questões colocadas pelo jornal.
As críticas agora divulgadas incidem, assim, sobretudo sobre a metodologia, fundamentação e enquadramento académico da investigação, não estando em causa, nesta análise, a validade formal do grau de doutor obtido por Francisco Gomes na Universidade de Cádis.