Apelo de ex-ministro Fedorov para eleições não convence população
O apelo do ex-ministro da Defesa ucraniano Mykhailo Fedorov, demitido há um mês pelo Presidente, Volodymyr Zelensky, para a realização de eleições antes do fim da guerra foi recebido com reações mornas ou críticas dos ucranianos.
A proposta de Fedorov surge num contexto em que o país tem obstáculos judiciais e de segurança ainda por resolver, a braços com uma guerra russa iniciada com a invasão do seu território, em fevereiro de 2022.
Representantes tanto do círculo presidencial como da oposição, incluindo muitos dos que protestaram contra a demissão de Fedorov, consideraram a ideia de eleições não só irrealista como até perigosa.
"Simplesmente, não vejo como é que isso pode ser feito. Muitas cidades estão ocupadas, muitos ucranianos estão no estrangeiro ou nas Forças Armadas. Isto levanta muitas questões: como garantir a participação, a segurança e a igualdade de condições na campanha eleitoral?", declarou à agência de notícias espanhola EFE Lyudmila Shchedrik, que apoiou os esforços de Fedorov para reformar o Exército em que o marido combate.
Dmitro Kozyatinskyi, um dos coordenadores das manifestações, reconheceu que estas tinham de facto terminado após o discurso de Fedorov e a nomeação de Yevgeny Khmara como seu sucessor.
"Para mim, estes protestos eram a favor do diálogo e das reformas, não a favor de pessoas", escreveu na rede social Facebook.
"Preocupa-me muito a desunião da sociedade durante o processo eleitoral e como isso poderia afetar o curso da guerra", acrescentou.
Embora Zelensky e o seu Governo se tenham abstido de fazer comentários públicos, uma fonte do gabinete presidencial disse à comunicação social ucraniana, no meio de ataques aéreos, que "drones e mísseis russos estão a responder" ao apelo para eleições.
Para o presidente da comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros, Oleksandr Merezhko, a realização de eleições durante a guerra "é precisamente o que [o Presidente russo, Vladimir] Putin quer: uma luta interna feroz na Ucrânia que quebre a unidade nacional".
Os deputados da oposição Yaroslav Zhelezniak e Mykola Kniazhitski também rejeitam a ideia, salientando que as eleições em tempo de guerra são proibidas pela Constituição, que não pode ser alterada enquanto vigora a lei marcial, e que a ideia de eleições tem figurado entre as exigências de Moscovo à Ucrânia.
"Qualquer pessoa que levante a questão de eleições durante uma guerra ativa põe em risco a existência do país; uma campanha eleitoral significa meses de lutas internas, divisões, acusações mútuas e uma paralisia da governação num país que está a lutar para sobreviver", declarou Bogdan Krutevich, antigo Chefe do Estado-Maior do Regimento Azov.
Além disso, acrescentou, Fedorov também deve assumir alguma responsabilidade pelo estado da governação que critica, uma vez que fez parte do sistema durante sete anos.
Olga Aivazovska, membro de um grupo de trabalho sobre possíveis eleições em tempo de guerra, afirmou que, durante o mandato de Fedorov como ministro, este não apoiou o seu trabalho, que começou depois de Zelensky ter concordado inicialmente, sob pressão dos Estados Unidos, em realizar eleições assim que a segurança estivesse garantida.
Os trabalhos foram interrompidos em abril, após o fracasso das negociações entre a Ucrânia, a Rússia e os Estados Unidos, e o Ministério da Defesa recusou-se a enviar representantes para tratar de preparativos para que os soldados pudessem votar.
Os desafios são enormes, observou Aivazovska, uma vez que 50% dos ucranianos vivem atualmente fora das suas residências oficiais.
A especialista em direito constitucional Yulia Kirichenko defendeu que as eleições democráticas não podem ser garantidas em tempo de guerra.
Segundo Kirichenko, é impossível assegurar a livre expressão da vontade, uma competição política genuína, a liberdade de campanha e o segredo do voto.
Alguns candidatos, acrescentou, poderiam ver-se obrigados a fazer campanha sob o controlo efetivo das autoridades, através da hierarquia militar.
Embora as eleições continuem a ser improváveis, a declaração de Fedorov não significa a sua derrota política total, nem que a pressão sobre Zelensky vá diminuir.
A resposta morna ao apelo de Fedorov para eleições não reduz a necessidade de responsabilizar as autoridades, segundo a população, sendo Zelensky criticado pela falta de transparência na tomada de decisões e enfrentando a sua equipa investigações anticorrupção, enquanto a guerra não mostra sinais de se aproximar do fim.