ONU pede à Rússia que autorize único partido antiguerra de participar nas eleições
A ONU pediu hoje à Rússia para levantar a proibição imposta ao único partido russo contra a guerra na Ucrânia e permitir a participação da força política nas eleições legislativas de setembro.
"Estamos profundamente preocupados com a exclusão do Yabloko, um dos mais antigos partidos políticos russos, das eleições legislativas de setembro", afirmou o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos na rede social X.
"Apelamos às autoridades para que levantem esta proibição", acrescentou.
Na segunda-feira, o Supremo Tribunal russo proibiu o partido de concorrer a estas eleições, privando os eleitores que se opõem ao conflito na Ucrânia --- que dura há quatro anos e meio --- da possibilidade de exigir o seu fim através do seu voto.
O tribunal decidiu favoravelmente ao pedido de uma formação política nacionalista próxima do Kremlin (presidência russa), o Rodina, que tinha interposto um recurso contra a autorização concedida pela Comissão Eleitoral Central.
A maioria dos opositores ao Presidente russo, Vladimir Putin, encontra-se presa, no exílio ou morta, e o Yabloko é o único partido liberal ainda em atividade na Rússia.
Esta formação tinha recebido, na perspetiva das próximas eleições legislativas, marcadas para 20 de setembro, o apoio de várias figuras da oposição exiladas no estrangeiro, entre as quais Yulia Navalnaya, viúva do opositor Alexei Navalny, que morreu em 2024 na prisão.
No entanto, uma sondagem realizada no início deste ano atribuía ao Yabloko apenas 3% das intenções de voto, um resultado inferior ao limiar de 5% necessário para entrar na Duma (câmara baixa do parlamento).
A ação judicial interposta contra o partido liberal é semelhante à que o Rodina tinha apresentado em julho na região noroeste da Carélia, e que levou o Supremo local a excluir o Yabloko das eleições para a assembleia regional.
O Yabloko exige a cessação imediata dos combates e o início célere de negociações de paz com a Ucrânia, além da libertação dos mais de 1.750 presos políticos.
Políticos russos de renome defenderam nos últimos dias que o Yabloko, cujas listas foram aprovadas no final de julho pela Comissão Eleitoral Central, devia ser excluído.
Vários candidatos mais populares do Yabloko, incluindo o líder, Nikolai Rybakov, já foram excluídos por criticarem a guerra ou por extremismo, nomeadamente por publicarem nas redes sociais imagens de Navalny.
As autoridades e outros partidos pró-Kremlin temem que o Yabloko agregue o voto de protesto contra a guerra na Ucrânia, que o Presidente russo, Vladimir Putin, decidiu invadir em fevereiro de 2022.
O Yabloko é o único partido que, desde a queda da antiga União Soviética, se opôs a todas as guerras em que a Rússia esteve envolvida, na Chechénia (1994), na Síria (2015) ou na Ucrânia (2022).
Formação liberal ao estilo ocidental, o Yabloko, que significa maçã em russo, tem defendido a economia de mercado, os direitos humanos e o Estado de direito, o que o colocou em confronto com os governos liderados por Boris Yeltsin e Putin.
A formação política foi fundada em 1993, dois anos após a desintegração da União Soviética, como uma aliança de democratas de diversas tendências, desde democratas-cristãos a social-democratas, verdes e feministas.
Grigori Yavlinski, líder histórico do Yabloko, é um economista nascido na Ucrânia que fundou o partido juntamente com outros reformistas de renome da época: Vladimir Lukin e Yuri Boldirev.
O partido desempenhou um papel preponderante na política russa durante a sua primeira década, período em que sempre teve representação parlamentar na Duma, embora atrás dos nacionalistas e dos comunistas.
O Yabloko perdeu peso político a partir da chegada de Putin à Presidência, em 2000.
Deixou de ter um grupo parlamentar em 2003 e ficou sem representantes na assembleia quatro anos mais tarde.