Aumento sem precedentes de protestos em Cuba na primeira metade de 2026
A ONG Cubalex afirmou hoje que "a crise energética, hídrica e sanitária" provocou um "aumento sem precedentes" dos protestos em Cuba no primeiro semestre de 2026, com 766 manifestações em 141 municípios da ilha.
A Cubalex indicou que as manifestações atingiram "picos históricos" em fevereiro e em junho, mês em que chegaram a registar-se até 31 protestos num só dia, com um total mensal de 253, o maior num só mês desde que a ONG iniciou a contagem, em 2022.
Os protestos "não só aumentaram em quantidade, como também em radicalização, em resposta à crise estrutural" que o país enfrenta, afirmou Salomé García, investigadora da Cubalex, num debate virtual hoje para apresentar o relatório semestral sobre os Direitos Humanos na ilha comunista sujeita a um prolongado embargo norte-americano e apoiada por países como Rússia e China.
García acrescentou que o descontentamento social em Cuba expressa-se através da "queima de lixo, panelas, bandeiras, cartazes, ocupação de espaços públicos e encerramentos de ruas".
Nesse sentido, indicou que os acontecimentos de maior "radicalização" registados foram a queima da entrada do edifício da sede municipal do Partido Comunista de Cuba (PCC, único legal) na cidade de Morón, em Ciego de Ávila (centro) em março, e outra ação semelhante num museu dedicado a um guerrilheiro próximo de Ernesto Che Guevara, na povoação de Contramaestre, em Santiago de Cuba.
Segundo a Cubalex, o epicentro dos protestos continua a ser a capital Havana, com 495 eventos em seis meses, "registando-se um deslocamento progressivo das periferias para zonas centrais da cidade", enquanto as províncias de Santiago de Cuba, com 81 manifestações, e Matanzas, com 25, se consolidaram como segundo e terceiro focos de mobilização.
Cuba atravessa uma profunda crise há seis anos, com escassez de bens básicos, cortes de eletricidade constantes, inflação descontrolada, dolarização parcial e colapso dos serviços básicos.
A pressão dos Estados Unidos, intensificada com o cerco petrolífero e as sanções do último meio ano, agravou ainda mais a situação.
O relatório refere que o regime cubano "respondeu com uma intensificação paralela da repressão" aos protestos, com ações como "detenções em massa no momento das manifestações, seguidas de convocações, ameaças, multas e processos criminais prolongados semanas ou meses depois".
Os dados da Cubalex indicam que, no semestre, foram registados 257 incidentes de detenções arbitrárias, 70% mais do que no semestre anterior, com pelo menos 410 vítimas.
A ONG denunciou também outras atividades repressivas contra o "direito à liberdade de expressão e à informação", nomeadamente "detenções, processos criminais e sanções por opiniões críticas, cortes seletivos de comunicações e ataques informáticos com fins de vigilância e censura".
Sublinhou ainda que, no âmbito penitenciário, persistiram "a violência e as mortes evitáveis, por negligência médica num contexto de impunidade absoluta", denunciando também "a elevada concentração de vulnerabilidades em pessoas privadas de liberdade, afrodescendentes, defensores dos Direitos Humanos e ex-presos políticos".