Não faltou ninguém
O luxo de um casamento mede-se pelo significado de cada escolha
Os sinos badalavam. Era sexta-feira, 24 de maio de 2024, 12h30.A acolhedora Capela de Santo António, na Ponta do Sol, acabara de ser aberta para nós.
O Miguel esperava lá dentro, com o uniforme branco de cerimónia da Marinha e a boina de Fuzileiro na mão. Não me tinha visto vestida de noiva.
Eu levava um vestido branco, maravilhoso de tão simples, e, nas mãos, um ramo de Beijinhos de Mãe. Presas às flores, as chapas de identificação militar do Miguel, as mesmas que o acompanham em missão.
Éramos nós e o conservador.
Antes de entrar, a senhora que tinha a chave da capela olhou para mim:
— Nenhuma noiva pode entrar sem música. E eu tenho a música ideal.
Escolheu o Aleluia. E eu entrei.
Ainda hoje consigo voltar àquele instante. A música, os sinos, aquela pequena capela e o Miguel, de branco, à minha espera. Estava tão bonito.
Quando os nossos olhos se cruzaram, voltei ao primeiro dia em que o vi. A frase que me atravessou naquele momento: “Agora sei porque a vida me trouxe à Madeira.”
Não havia mais ninguém. E não faltava ninguém.
Não havia convidados para receber, festa à nossa espera ou pessoas a quem dar atenção. Naquele momento, só existíamos nós. Estávamos exatamente onde queríamos estar. Inteiros. Presentes. Felizes.
Parecia uma cena de cinema. Mas aconteceu. E era o nosso casamento.
Lembrei-me daquele dia quando soube como Cristiano Ronaldo e Georgina Rodríguez escolheram casar. Reconheci a intimidade, a simplicidade, a ausência de uma grande festa e, sobretudo, uma decisão: viver aquele compromisso de acordo com aquilo que fazia sentido para eles. Até a lua de mel ficou para depois. A nossa também. Só aconteceu um ano mais tarde.
Os nossos filhos sabiam. Os nossos pais também. Quem mais importava recebeu a decisão com carinho e naturalidade.
As perguntas e as críticas vieram de fora.
“Mas não fizeram festa?”
“Não convidaram ninguém?”
“Casaram sozinhos?”
Há uma facilidade curiosa em opinarmos sobre a forma como os outros devem viver momentos que só a eles pertencem.
A pergunta que orientou o nosso casamento foi esta: o que é verdadeiro para nós?
A capela era. Fazia parte da nossa história.
A data também. Era 24 de maio, dia de Maria Auxiliadora. Para mim, que tenho uma ligação profunda a Maria, não era apenas mais uma sexta-feira no calendário.
E quanto menos procurámos tornar aquele dia extraordinário, mais o extraordinário se foi escondendo nas coisas pequenas.
Eu tinha pedido simplicidade à florista. Ela fez-me dois ramos, um de jarros brancos e outro de Beijinhos de Mãe.
Uma mulher que não me conhecia abriu uma capela e sentiu que nenhuma noiva entraria ali sem música.
O Miguel preparava-se para uma competição internacional e não estava a comer doces. Não teríamos bolo. Só que uma cake designer, que soube do casamento na altura do pedido, esse sim público, fez questão de nos oferecer um. Lindíssimo. Cenográfico. Não se podia comer.
Uma mulher deu-me música. Outra, flores. Outra deu-nos um bolo.
Umas chapas militares ficaram presas ao meu ramo. Uma boina de Fuzileiro ficou nas mãos do homem que me esperava.
E os sinos tocaram.
O nosso casamento tornou-se grande não pela produção, mas pelo significado das pequenas coisas.
O nosso noivado foi curto. Não houve meses e meses de preparativos. Nem eram precisos. Havia certeza sobre o que estávamos a fazer.
E então o conservador fez-nos a pergunta: era da nossa livre vontade casar um com o outro?
Sim.
Um amor adulto não elimina a liberdade. Precisa dela.
Nós não casámos porque tínhamos de casar. Não tínhamos filhos em comum, uma convenção a cumprir ou uma relação que precisasse de ser legitimada.
Podíamos não casar. E escolhemos casar.
Cada um chegou àquela capela com uma vida já começada. Filhos, responsabilidades, alegrias, desilusões, aprendizagens e cicatrizes.
Não estávamos a começar a vida juntos. Estávamos a escolher, em consciência, com quem queríamos continuá-la.
Houve mais uma escolha simbólica.
O Miguel adotou Aleluia. Eu adotei Abibe. Nenhum deixou o seu nome. Cada um acrescentou o outro ao seu.
Juntos, tornámo-nos Aleluia Abibe.
Gosto de pensar no amor assim. Não como fusão, mas como comunhão.
Amar não deveria exigir que duas pessoas deixassem de ser quem são para caberem numa relação.
O Miguel continua a ser o Miguel. Eu continuo a ser eu. E existe um terceiro lugar que construímos todos os dias: nós.
Já sabíamos também que amar não é sentir sempre a mesma coisa. O sentimento acontece. O amor também se decide.
Um casamento não se sustenta apenas naquele dia em que duas pessoas dizem “sim”, mas nos muitos dias em que continuam a escolhê-lo.
Também por isso protegemos o nosso “nós”.
Temos redes sociais públicas e profissões que nos expõem. Partilhamos momentos da nossa relação, mas ninguém conhece verdadeiramente a nossa vida privada.
Intimidade é saber o que queremos proteger.
Há coisas que não precisam de ser mostradas para terem existido. Nem explicadas para terem valor.
Podemos abrir algumas janelas. Mas a casa continua a ser nossa.
E quando penso no nosso casamento, penso em tudo o que estava lá.
Uma sexta-feira.
24 de maio.
12h30.
Uma pequena Capela de Santo António, na Ponta do Sol.
O Miguel de branco, com a boina de Fuzileiro na mão.
Eu, de branco também, com os Beijinhos de Mãe e as chapas que o acompanham em missão.
O Aleluia.
Os sinos.
E nós.
O nosso sorriso.
Podíamos não casar.
Queríamos casar.
Escolhemo-nos.
E não faltou ninguém.