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Quando os ricos se (Com)portam mal

A praia da Comporta enfrentou a sua maior crise existencial desde que alguém se lembrou de abrir um Aldi a menos de vinte minutos: dezenas de fardos de cocaína apareceram na praia, sem aviso, sem marcação e — pior ainda — sem nenhuma estética que combinasse com o resto do areal. Mais de duas toneladas quiseram invadir a praia mais elitista de Portugal, em vez de ir bater à Praia do Marreco, no Porto.

Os primeiros a avistar a “encomenda” hesitaram, dizem as testemunhas. Não por susto. Por desconhecer a marca. Ali, onde uma tábua de surf mal amanhada já é motivo de queixa ao condomínio, ninguém sabia bem que categoria atribuir a uns fardos pretos sem etiqueta de luxo, sem tipografia bonita, sem sequer um QR code a explicar a origem sustentável do produto. Só quando alguém, mais lúcido, decidiu cheirar em vez de fotografar, é que a fantasia caiu por terra.

Chamou-se então a Polícia Judiciária, a Marinha, fuzileiros e tudo o que mexia — e assistiu-se ao fenómeno raríssimo de ver fardas na Comporta que não eram de segurança privada ou de arrumador de carros. A operação teve aparato televisivo e direito imediato à comparação com “Rabo de Peixe”, numa versão muito mais gourmet. Mas enquanto os pescadores açorianos de 2001 não sabiam o valor do que tinham em mãos, aqui os gestores de património sabiam exatamente quanto valia a dita.

Não sei se os pacotes tinham destinatário. Mas as piadas demoraram tanto a aparecer como um cubo de gelo a derreter num cocktail que custa quase o salário mínimo. Tudo virou anedota: “delivery que correu mal”, “serviço de quarto extra”, risos entre dois goles de rosé e sabe-se lá que mais. Porque ali, mesmo o crime internacional organizado é tratado com o desdém reservado a um empregado que trouxe a torrada fria. Ninguém assumiu que era o destinatário, porque isso interessa menos do que saber o ano do Porsche do vizinho ou a marca do fato de banho daquela tiazorra que tem oito nomes e dois não são portugueses.

Enquanto a operação decorria, os jipes continuavam estacionados sobre vegetação protegida com o mesmo à-vontade de sempre, mesmo sendo revistados e ninguém se lembrou de perguntar como raio a droga apareceu naquela costa sem ser convidada, sendo que ali toda a gente repara em tudo, até na origem e a percentagem de virgindade do azeite servido ao jantar. Mas droga? Essa, estranhamente, ninguém viu. Felizmente, nenhuma criança apanhou um saco, porque os filhos da Comporta não mexem em embrulhos que não sejam de marca.

No fim, ficou tudo na mesma: droga apreendida, praia devolvida ao ecossistema habitual de bronzeados caros e conversas sobre metros quadrados. A única mudança séria é que agora, quando alguém pergunta baixinho “sabes se por aqui há alguma coisa boa?”, já ninguém consegue garantir se a resposta é sobre imobiliário ou sobre estupefacientes.