As estradas que guardam luto
A educação rodoviária deve ser uma aprendizagem contínua de respeito, prudência e responsabilidade
Todos os dias conduzo nas ruas e estradas da Madeira. Ruas que me levam ao trabalho. Estradas que atravessam montanhas, entram por túneis e contornam precipícios, oferecendo-nos, quase a cada curva, a beleza do mar e da serra. Nos últimos tempos, porém, comecei a olhá-las de outra maneira. Já não vejo apenas os caminhos que me levam de um lugar a outro. Vejo também as marcas invisíveis dos acidentes.
Há paredes, nas ruas, estradas e túneis da Madeira, que guardam as marcas da morte. Tornam-se uma espécie de luto contínuo. Um dos casos que mais me impressionou foi o de um jovem que regressava a casa, ao fim de um dia de trabalho, quando uma viatura invadiu a faixa contrária e embateu violentamente no seu automóvel, transformando-o, tragicamente, numa espécie de aMORTEcedor. Talvez este caso me tenha tocado de forma tão profunda por passar tantas vezes naquele local. Talvez porque, desde então, sempre que atravesso aquele túnel, penso na violência daquele instante e em como uma rotina diária se pode transformar, em poucos segundos, numa tragédia irreparável. Mas penso, sobretudo, na esposa e na criança que ficaram. Naquele dia, não perderam apenas um marido e um pai: perderam parte do seu mundo.
Ainda permanece na minha memória a noite em que dois jovens morreram num acidente de mota na Via Rápida, antes da saída de Santo António. Poucos dias depois, outro motociclista morreu num despiste na Rua Pestana Júnior. São tantos os casos. Do homem que se despistou e capotou, ficando com fraturas nos dois braços. A estrada foi encerrada, foi prestado socorro e, algum tempo depois, o trânsito voltou a circular. É isso que mais me inquieta: a rapidez com que uma tragédia deixa de ocupar a nossa atenção. “Despiste.” “Colisão.” “Capotamento.” “Ferido grave.” “Vítima mortal.” Palavras curtas para acontecimentos que podem alterar ou destruir uma vida inteira. E que não nos servem de lição.
Numa única semana, entre 31 de julho e 6 de agosto de 2026, a PSP registou 75 acidentes rodoviários na Madeira. São mais de dez acidentes por dia. Cada número representa uma pessoa que saiu de casa convencida de que chegaria ao seu destino. Representa também uma família e amigos obrigados a enfrentar a dor, ou uma ausência definitiva.
Nem todos os acidentes resultam do excesso de velocidade ou de comportamentos imprudentes. Existem falhas mecânicas, condições atmosféricas adversas e estradas particularmente difíceis. Mas há uma aprendizagem que todos devemos fazer: conduzir é um exercício permanente de responsabilidade. É compreender que não estamos sozinhos na estrada e que cada decisão pode afetar profundamente a vida de outra pessoa. Para quem circula de mota, a vulnerabilidade é ainda maior. Cada nova notícia lembra-me como é frágil a distância entre uma viagem habitual e uma tragédia.
A educação rodoviária deve ser uma aprendizagem contínua de respeito, prudência e responsabilidade perante o outro. Educar para a segurança rodoviária é educar para o valor da vida. Não existem soluções simples, mas é urgente discutir medidas concretas, como a instalação de radares de velocidade e câmaras de vigilância na Via Rápida — uma proposta já apresentada através de uma petição entregue à Assembleia Legislativa da Madeira. As nossas estradas devem ser lugares de passagem e de regresso a casa, nunca lugares de luto.