As tias, sempre elas
As conversas levavam-me à beira-mar e ao entusiasmo que deviam sentir, assim misturadas com gente fina da cidade e estrangeiros de todos os lados
O calor fazia tremer o ar no fim do caminho quando a minha mãe batia o portão da entrada e me arrastava atrás dela. A dona Celina seguia em passo ligeiro, com o bordado dentro de um saco, e eu ia logo atrás, a sentir-me mais pesada, mais fora do formato e amuada com a vida. Agosto ia a meio e seria a única adolescente de 13 anos condenada a passar as tardes quentes de Verão entre o quintal de casa e a sombra da ameixeira amarela da casa das minhas tias solteiras. A minha mãe suspirava por aquelas tardes onde voltava a ser quase como quando eram novas e como as fotografias a preto e branco, as muitas que havia guardadas dentro de gavetas e caixas de sapatos.
A minha tia Teresa tirava férias de contínua do Colégio da Apresentação e, por um instante no ano, podiam conversar sem pressa e partilhar segredos que só as duas conheciam. Às vezes também a minha tia Alice se juntava naquela roda de bordado e o passado ganhava cor, enchia-se de histórias e riso. E, sem perceber, levavam-me com elas numa viagem para longe do ar quente que vinha dos muros e do cimento onde me sentava para ouvir. Convocados pela saudade vinham ali dar os meus avós, os meus bisavós e a vizinha que era prima e lia todos os dias o jornal para, depois, anunciar que os quatros cavaleiros do Apocalipse estavam a chegar.
A Luisinha, a prima solteira e velha, vivia numa espécie de pobreza orgulhosa e, nos anos da II Guerra, comera milho com pimenta, e vivia do dinheiro que a família mandava do Brasil. Não tinha sido fácil, só havia milho amarelo e bacalhau raquítico que nem dava para a cova de um dente e as minhas tias e a minha mãe faziam parte dos que tinham escapado da fome. O meu bisavó era proprietário de terras e agricultor, mas o mundo era outro e elas eram todas mulheres. O caminho acabara ali, debaixo da ameixeira amarela, a bordar e a falar de quando eram novas como nas fotografias antigas, as tais que estavam dentro de gavetas e caixas.
Eu era a única pessoa interessada nas fotografias, mexia e remexia, uma e outra vez e era a única que ouvia as histórias e tentava imaginar esse passado sem luz eléctrica, nem água potável nas torneiras e com aquelas mulheres de meia idade novas, em vestidos de chita e cabelos arranjados como nos filmes a preto e branco da sessão da tarde. E tentava vê-las dentro de um autocarro igual ao Dodge que fizera durante anos a carreira do Trapiche por ser o único a passar na ponte do cemitério. A minha avó só tinha dinheiro para uma viagem e o brio dizia que se devia apresentar nas casas de fazendas e nas lojas de loiça com aprumo, sem roupa transpirada e cabelos desalinhados pelo esforço de ir de Santo António até à cidade a pé.
As conversas levavam-me à beira-mar e ao entusiasmo que deviam sentir, assim misturadas com gente fina da cidade e estrangeiros de todos os lados. E à minha avó, austera e pouca dada a liberdades, que não cedia na dimensão do decote, nem no comprimento da bainha da saia. A seguir, porque era assim mesmo, o passado vinha e ia, não obedecia sequer a uma lógica. Às vezes eram crianças, depois raparigas a tratar do cabelo ou não tinham nascido sequer e contavam o que tinham ouvido contar. O tio José, que fugiu da I Guerra, e morreu de gripe espanhola, o mesmo que a senhora que tirava sortes informara que já estava morto, antes de chegar a notícia de Trinidad e Tobago. Ou a prima, que nunca teve outro nome a não ser a prima de lá de dentro, que caiu de cama no segundo em que o marido morreu atropelado na América.
Tudo isto entrava pelas tardes de Agosto, onde o calor me fazia sentir mais gorda e mais estranha na caminhada tortuosa que foi a minha adolescência. E ficar sentada a ouvir histórias de um tempo de que ninguém queria saber não me fazia encaixar melhor no modelo de miúda popular. Não era só a roupa que estava apertada, era eu, a Lina Marta, sentada no degrau de cimento da entrada da casa das minhas tias, fascinada com o que me contavam três mulheres de meia idade, com a quarta classe para adultos e que, sem saber, me conduziam para o futuro e mostravam por onde devia seguir.