Há mais desgraças nas estradas depois do Rali?
A pergunta surgiu num comentário à notícia de José de Freitas sobre o capotamento nas Romeiras: será que todos os anos, depois do Rali da Madeira, acontecem desgraças nas estradas da Região? Os últimos acontecimentos dão força à suspeita. O Rali terminou a 1 de Agosto e, nos três dias seguintes, o DIÁRIO noticiou três acidentes: uma colisão sem feridos na zona do Ilma; o acidente na Via Rápida que causou uma morte e dois feridos; e uma colisão num túnel do Funchal, com dois feridos. O capotamento nas Romeiras ocorreu no quarto dia, mas sem vítimas.
Também encontramos casos graves depois das duas edições anteriores. Em 2025, nos três dias posteriores à prova, foram noticiados pelo menos 11 acidentes com vítimas, dos quais resultaram 12 feridos. Em 2024, no mesmo intervalo, registaram-se três acidentes, cinco feridos e a morte de um motociclista.
A sequência existe. Mas três anos de notícias não bastam para provar que o Rali é seguido por um período anormalmente perigoso. Para testar essa hipótese, analisámos os dados mensais da Direcção Regional de Estatística da Madeira, cuja fonte é o Comando Regional da PSP, entre 2021 e 2025.
Os números mostram que Agosto é, efectivamente, um mês pesado nas estradas madeirenses. Em 2021, foram registados 298 acidentes, 82 dos quais com vítimas. Houve 116 vítimas: uma mortal, sete feridos graves e 108 ligeiros. Em 2022, ocorreram 283 acidentes, 95 com vítimas. O balanço foi de 123 vítimas, entre três mortos, cinco feridos graves e 115 ligeiros.
Em Agosto de 2023, a PSP contabilizou 321 acidentes, 94 dos quais com vítimas. Morreram duas pessoas, dez ficaram gravemente feridas e 97 sofreram ferimentos ligeiros. Em 2024, o número subiu para 363 acidentes, 101 com vítimas. Foram registados três mortos, quatro feridos graves e 117 ligeiros.
Em 2025, Agosto atingiu o valor mais elevado da série: 379 acidentes, 115 com vítimas e 134 vítimas. Não houve mortes, mas registaram-se dez feridos graves e 124 ligeiros.
No conjunto dos cinco anos, a Madeira registou 17.626 acidentes com intervenção policial. Agosto concentrou 1.644, o equivalente a 9,3% do total. Como os meses não têm todos a mesma duração, calculámos a frequência diária: 10,6 acidentes por dia em Agosto, contra 9,6 no conjunto dos restantes meses. A diferença é de aproximadamente 11%.
O desvio aumenta quando são considerados apenas os acidentes com vítimas. Entre 2021 e 2025 ocorreram 4.900, dos quais 487 em Agosto. Isso corresponde a 3,14 acidentes com vítimas por dia, mais 19% do que a média de 2,64 verificada nos restantes meses. Também foram contabilizadas 606 vítimas em Agosto, entre mortos e feridos. A média foi de 3,91 por dia, contra 3,22 no resto do ano, uma diferença de cerca de 21%.
A mortalidade exige maior prudência. Agosto somou nove mortos em cinco anos, 13,8% das 65 vítimas mortais registadas no período. É uma proporção superior ao peso do mês no calendário, mas nove casos constituem uma base demasiado pequena para concluir que existe um risco de morte estatisticamente diferente. Basta um acidente com várias vítimas para alterar significativamente o resultado mensal.
Há, portanto, uma primeira conclusão: Agosto não é um mês normal. Em todos os anos analisados, o número total de acidentes ficou acima da respectiva média mensal anual. O mês aparece repetidamente entre os mais problemáticos, embora nem sempre ocupe o primeiro lugar.
Mas isso prova um “efeito Rali”? Ainda não. Quando comparamos Agosto com Julho, e não com a média de todo o ano, a diferença reduz-se drasticamente.
Nos cinco anos, Julho registou 1.617 acidentes e Agosto 1.644: apenas mais 27, ou 1,7%. Nos acidentes com vítimas, a diferença é igualmente curta: 480 em Julho e 487 em Agosto. O número de vítimas passou de 586 para 606, uma subida de 3,4%. Ou seja, Julho e Agosto apresentam valores muito próximos e ambos estão acima da média. O que os dados detectam é um problema de sinistralidade no Verão, não um agravamento demonstrado depois do Rali.
Há ainda uma diferença essencial entre frequência e risco. A DREM contabiliza acidentes, mas estes dados não dizem quantos veículos circularam, quantos quilómetros foram percorridos ou se houve maior pressão rodoviária devido a férias, turismo, deslocações nocturnas ou eventos. Sem essa exposição ao tráfego, não é possível saber se o risco individual aumentou ou se ocorreram mais acidentes porque circularam mais viaturas.
A série também revela um problema estrutural. Os acidentes com intervenção policial subiram de 2.892 em 2021 para 4.125 em 2025, um aumento de 42,6%. Os acidentes com vítimas passaram de 869 para 1.129 e o número total de vítimas de 1.058 para 1.378. A sinistralidade tem vindo a crescer ao longo do ano, não apenas junto às datas do Rali.
Por fim, os dados mensais não permitem separar os dias anteriores, os dias da prova e o período posterior. Também não identificam se os condutores eram espectadores, participantes ou pessoas sem qualquer relação com o evento.
Para provar um efeito específico seria necessário analisar os registos diários de vários anos, comparar períodos iguais antes e depois da prova e controlar factores como volume de tráfego, dias da semana, turismo, meteorologia, álcool, velocidade e localização dos acidentes. Essa informação não está presente nos dados disponíveis.
Há acidentes graves depois do Rali e Agosto apresenta mais acidentes e vítimas do que a média anual. Porém, Julho tem valores quase idênticos e não existe evidência estatística que permita atribuir o aumento à competição. Os dados provam um “efeito Verão” nas estradas da Madeira; não provam um “efeito Rali”.