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Crónicas

Viver por pontos, o novo “médico” de pulso

Medir o corpo não é o mesmo que sentir o corpo. Há dias, num jantar entre amigos, um deles interrompeu a conversa para levantar o pulso e anunciar, com uma preocupação genuína, que o relógio acabava de o avisar que deveria ir descansar. Ninguém achou estranho, pelo contrário, seguiram-se meia hora de comparações, de pontuações de sono, de médias semanais e de queixas contra um anel que teimava em atribuir-lhe noites medíocres. Vim para casa a pensar naquilo.

Nos últimos anos, deixámos de habitar o corpo e passámos a consultá-lo, como quem abre um relatório de manhã para saber se a semana correu bem. Temos hoje tudo para nos vigiarmos. O relógio que vibra a lembrar que estamos sentados há demasiado tempo. A pulseira sem mostrador, que mede sem sequer dar o consolo de mostrar as horas. O anel discreto que decide, ainda antes de acordarmos, se estamos ou não preparados para o dia. As aplicações de corrida, de alimentação, de meditação, de ciclos de sono, de respiração, de tudo. Nunca foi tão fácil transformar um dia inteiro num painel de indicadores, mais dados e menos noção, mais registo e menos memória, mais números e menos instinto. Nunca soubemos tanto sobre nós e nunca nos ouvimos tão pouco.

O problema não está no aparelho, está no que ele nos ensinou a fazer e na dependência. Conhecemos todos alguém que acorda e, antes do café e antes do bom dia a quem dorme ao lado, verifica a pontuação da noite. Se der 82 o dia começa bem. Se der 54 começa mal, mesmo que a pessoa se sinta perfeitamente. Repare-se na inversão, já não é o corpo que informa o aparelho, é o aparelho que informa o corpo. E como é que chegámos ao ponto de precisar de autorização escrita para nos sentirmos bem-dispostos? A medicina já tem nome para o que daí resulta, ortossonia, a insónia provocada pela obsessão de dormir bem. Não se dorme melhor por se medir o sono, nem se vive melhor por se contar cada passo. Convém, já agora, lembrar de onde vem tudo isto. Os famosos dez mil passos não saíram de nenhum estudo científico, saíram de uma campanha japonesa dos anos 60 para vender um pedómetro, e o número foi escolhido porque o carácter japonês para dez mil se parece com um homem a andar. Meio planeta organiza a sua rotina em torno de um trocadilho gráfico com sessenta anos.

Não quero, com isto, ser injusto. Estes aparelhos salvam vidas e há casos de relógios que detetaram arritmias em pessoas que se julgavam saudáveis e que chegaram a tempo ao hospital. Quem recupera de um problema cardíaco, quem vive sozinho e teme cair, quem precisa de disciplina para voltar a mexer-se, tem hoje aliados que não existiam há dez anos, e isso não é vaidade, é medicina de bolso e merece respeito. Aquilo que me parece perigoso é outra coisa, é começarmos a acreditar que o que não se mede não aconteceu.

Porque não há pontuação para o jantar que se prolongou sem que ninguém desse pela hora. Para a conversa que nos tirou o sono e valeu a pena. Para a manhã inteira gasta a olhar o mar sem produzir nada de aproveitável. Para a gargalhada que veio do nada a meio de uma tarde difícil. Para o abraço que chegou no dia certo. Nada disto entra nas estatísticas, nada disto se transforma em percentagem ou em gráfico semanal, e é precisamente disto que nos havemos de lembrar quando um dia fizermos as contas à vida. Talvez a saúde não seja a soma dos dados que conseguimos recolher sobre nós próprios, mas a capacidade de viver os dias que não precisam de ser contados.

Frases soltas:

Finlay Tarling tinha 19 anos e morreu na sexta-feira numa estrada do Alto Minho, atropelado por um carro civil durante a oitava etapa da Volta a Portugal. Um rapaz que veio de Gales fazer aquilo de que gostava e que não voltou para casa. Fica a dor, e fica também uma pergunta incómoda. Numa prova com quase noventa edições, transmitida em direto e acompanhada por dezenas de veículos, como é que um carro entra numa estrada onde ainda há corredores em competição? A segurança de uma corrida não acaba com a passagem do pelotão principal, acaba com o último ciclista. Não é um pormenor logístico, é a condição para que a prova possa sequer existir.

Começa hoje a Romaria de Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, uma das festas mais bonitas do país. Vale a pena ir ver o ouro, os bordados e as ruas cobertas de flores. Há tradições que não precisam de ser modernizadas, só de ser respeitadas.