ONU pede esforço final decisivo para manter metas de desenvolvimento tangíveis até 2030
A ONU apelou ontem a um esforço final decisivo para manter tangível a promessa dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030, com um novo relatório a alertar que o progresso continua desigual e insuficiente.
A secretária-geral adjunta da ONU, Amina Mohammed, apresentou ontem em Nova Iorque o relatório de 2026 sobre os ODS, uma análise anual sobre o progresso da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, utilizando os dados e as estimativas mais recentes disponíveis, avaliando o progresso em cada Objetivo e as suas respetivas metas.
"Hoje, (...) podemos afirmar duas coisas com confiança: os ODS funcionam. Estão a trazer resultados às pessoas --- mas não com a rapidez suficiente, não de forma equitativa e não sem retrocessos. O relatório deste ano conta ambas as histórias", afirmou Amina Mohammed, em conferência de imprensa.
Desde a sua adoção em 2015, os ODS têm apresentado resultados em grande escala --- levando o acesso à água, à eletricidade e à saúde a milhares de milhões de pessoas.
"No entanto, o progresso continua a ser desigual e insuficiente. Sem um esforço decisivo para ampliar rapidamente o que funciona, a promessa dos ODS corre o risco de se tornar inatingível", referiu o relatório ontem apresentado.
Do lado das conquistas, o documento aponta para quase mil milhões de pessoas com acesso a água potável gerida de forma segura e 1,2 mil milhões com saneamento gerido de forma segura.
As novas infeções pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) caíram 30% entre 2015 e 2024 e as mortes relacionadas com a SIDA reduziram 35%.
A eletricidade chega agora a 92% da população mundial. O acesso à Internet aumentou de 40% para 74%. A proteção social abrange mais de metade da população global pela primeira vez na história.
"Guiados pelos dados deste relatório, a nossa visão da Agenda 2030 continua ao nosso alcance. Juntos, vamos dar um impulso final decisivo para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e construir um futuro saudável e próspero para todos", instou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, citado no relatório.
No entanto, apesar do progresso, o relatório salienta que persistem grandes desafios e que o "fosso entre a ambição e a realização nunca foi tão evidente -- ou tão consequente".
"Das 139 metas dos ODS com dados de tendência, apenas 36% estão no bom caminho ou a apresentar progressos moderados. Quase metade (49%) está a avançar muito lentamente e 15% regrediram abaixo das bases de 2015", destacou o documento.
Uma em cada dez pessoas ainda vive em extrema pobreza e cerca de 2,3 mil milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave.
Mais de 150 milhões de crianças continuam com atraso de crescimento e a mortalidade materna é quase três vezes superior à meta global.
Além disso, nenhuma das metas de igualdade de género está no bom caminho, de acordo com o relatório.
O número de pessoas afetadas por catástrofes relacionadas com o clima mais do que duplicou desde 2015, e a escalada dos conflitos, as alterações climáticas, a desaceleração do crescimento económico, o aumento da dívida e uma queda recorde na ajuda oficial ao desenvolvimento estão a agravar o défice e a afetar desproporcionalmente as pessoas mais vulneráveis do mundo.
"O que é preciso acontecer agora: ampliar o que funciona", defendeu a ONU.
O relatório sublinha que os ODS continuam a ser o plano mundial partilhado para a paz, a prosperidade e a sustentabilidade.
A ONU frisou que as provas acumuladas ao longo de mais de uma década de implementação mostram que um progresso significativo é possível --- mas apenas quando o compromisso político, o financiamento, a inovação e a cooperação internacional estão alinhados.
"Mais de uma década de implementação mostrou o que é possível. A tarefa agora é ampliar o que funciona --- com a urgência, o investimento e a cooperação necessários para cumprir a promessa da Agenda 2030", apelou o subsecretário-geral das Nações Unidas para os Assuntos Económicos e Sociais, Li Junhua.
Para isso, a ONU considera essencial fechar a lacuna de financiamento dos ODS de aproximadamente quatro triliões de dólares (3,5 biliões de euros) anuais --- através do Compromisso de Sevilha e da reforma da arquitetura financeira internacional.
As Nações Unidas também apelam à aceleração da transição energética, ao aproveitamento das tecnologias de ponta, incluindo a Inteligência Artificial, para o desenvolvimento sustentável, promover a igualdade de género como uma prioridade transversal e reforçar a cooperação multilateral.
"Os próximos quatro anos são o momento para um impulso final decisivo para mudar a trajetória em que nos encontramos atualmente", concluiu Amina Mohammed.