O silêncio que a cidade esqueceu
Quem escolheu viver na Estrada Monumental, ou em qualquer outro ponto da Madeira, pensou que escolhia um local privilegiado para trabalhar, divertir ou dormir. E, de certa forma, é. Há uma coreografia bonita no cruzar de idiomas dos turistas pela rua e na vivacidade da cidade. O problema é que, por aqui, as pessoas têm dificuldade em viver em paz.
A beleza dos dias desfaz-se ao ritmo de um sobressalto mecânico. O barulho ensurdecedor das motas e de alguns carros tornou-se a banda sonora oficial da nossa rotina. Rasga o ar sem pedir licença, tanto sob o sol do meio-dia como no silêncio desprotegido da madrugada. É um eco agressivo que invade as salas, faz tremer os vidros da janela e interrompe conversas e sonhos. Este agravamento diário gera ansiedade e impotência.
O direito ao descanso é um direito fundamental à saúde. Viver em constante estado de alerta devido ao ruído de escapes alterados é uma forma de violência urbana que não deve ser normalizada. O problema está a transformar-se numa engrenagem que já não se sabe com desacelerar.
Enquanto os motores rugem e modificam o compasso do nosso descanso, as autoridades teimam em brilhar pela ausência. A Polícia não se vê. As autoridades devem agir de forma imediata e eficaz. Ficamos entregues a um deserto de fiscalização, onde o direito ao sossego de quem aqui habita foi simplesmente esquecido. Precisamos, urgentemente, que a cidade volte a ouvir-nos. Ou que, pelo menos, nos deixe ouvir o silêncio.
Carlos Oliveira