A cidade do Funchal
Li com muito interesse e atenção o livro, recentemente apresentado, “URBANISMO NO FUNCHAL, CONTRIBUTO PARA A SUA HISTÓRIA”, do meu amigo Danilo Matos, publicado pela Âncora Editora.
Há livros que não se limitam a contar a história — reconstroem o pensamento que moldou o espaço onde vivemos. Em Urbanismo no Funchal: Contributos para a sua História, Danilo Matos oferece uma leitura rigorosa e apaixonada sobre a evolução da cidade, cruzando técnica, memória e cidadania. É uma obra que devolve ao Funchal a consciência do seu próprio desenho.
O autor percorre mais de um século de planeamento urbano, desde o Plano Ventura Terra (1912–1915) até ao Plano Diretor de 1972, passando pelos nomes que marcaram a arquitectura e o urbanismo português — Carlos Ramos, Edmundo Tavares, Faria da Costa e Rafael Botelho. Cada capítulo é uma viagem pela forma como a cidade foi pensada, contestada e reinventada.
Danilo Matos desmonta o mito de Ventura Terra com precisão cirúrgica: o plano de 1915, mais utópico do que exequível, ignorava a escala e o património do Funchal. Mas o autor não se limita à crítica — reconhece-lhe o valor visionário e o papel de “plano para a História”. Segue-se Carlos Ramos, que substitui a utopia pela acção concreta, introduzindo o “Plano de Aformoseamento” e uma visão moderna que respeita o passado. Edmundo Tavares, por sua vez, surge como o arquitecto esquecido que trouxe à Madeira o modernismo de qualidade e rigor técnico. Faria da Costa e Rafael Botelho completam o percurso, com planos que consolidaram o urbanismo madeirense e o integraram na corrente nacional.
Mais do que um estudo técnico, o livro é um acto de cidadania. Danilo Matos escreve com a autoridade de quem viveu o planeamento da cidade — foi director do Departamento de Planeamento Estratégico da Câmara do Funchal e membro das equipas que revisaram o PDM. A sua voz é simultaneamente a do investigador e a do participante, o que confere ao texto uma autenticidade rara.
Com base documental sólida e escrita clara, “Urbanismo no Funchal” é uma referência para compreender a relação entre arquitectura, política e identidade urbana. O autor mostra que o urbanismo não é apenas técnica — é pensamento social e cultural, uma forma de projectar o futuro sem apagar o passado.
Profusamente ilustrado e documentado, o livro com prefácio do Arquitecto Rui Campos Matos, apresenta, ainda, um anexo com o Plano Director da Cidade do Funchal, aprovado por despacho do Secretário de Estado das Obras Públicas, a 23 de Março de 1972
Danilo Matos oferece ao leitor uma obra que é, ao mesmo tempo, memória e reflexão. O Funchal surge aqui como laboratório de ideias, palco de utopias e exemplo de persistência.
“Urbanismo no Funchal: Contributos para a sua História”, é uma obra de referência para compreender a evolução da cidade e o pensamento urbanístico português. Danilo Matos alia o olhar técnico ao olhar poético, transformando o estudo do espaço urbano numa narrativa de identidade e de tempo. É um livro que não apenas descreve planos — interroga o sentido de planear.
Num tempo em que as cidades se reinventam, este livro lembra-nos que planear é também preservar e que o urbanismo é, antes de tudo, uma forma de pensar o humano.