Há protagonistas da Autonomia que ficaram ligados aos grandes discursos, às batalhas políticas ou às reformas mais visíveis. Manuel Jorge Bazenga Marques pertence a outra categoria. O seu nome associa-se à construção quotidiana da Região Autónoma, num tempo em que governar significava criar serviços, negociar competências e transformar um princípio constitucional numa administração capaz de responder às necessidades dos madeirenses.
Quando entrou para o I Governo Regional, a 1 de Outubro de 1976, a autonomia dava os primeiros passos. O novo modelo político estava consagrado na Constituição, mas praticamente tudo o resto estava por fazer. A Região precisava de assumir competências que continuavam concentradas nos ministérios, organizar serviços próprios e demonstrar que tinha capacidade para exercer o autogoverno. Foi esse processo, discreto mas decisivo, que marcaria grande parte da sua vida política.
Nascido no Funchal, em 1939, iniciou o percurso profissional longe da política. Trabalhou no Instituto Geográfico e Cadastral, onde aprendeu topografia, foi funcionário do Banco de Portugal durante cerca de quinze anos, professor do Ensino Técnico e dirigente do Sindicato dos Bancários. Foi precisamente essa experiência sindical que levou Jaime Ornelas Camacho a convidá-lo para integrar o primeiro executivo autonómico, assumindo a Secretaria Regional do Trabalho, Emprego e Formação Profissional.
A entrada no Governo coincidiu com um período particularmente exigente. A Madeira vivia ainda o ambiente político e social do pós-25 de Abril, marcado por forte conflitualidade laboral e pela necessidade de construir novas instituições. Bazenga Marques recorda negociações que começavam de manhã e terminavam já de madrugada, discutindo cláusula a cláusula contratos colectivos de trabalho, numa tentativa permanente de aproximar posições entre sindicatos, trabalhadores e entidades patronais. O diálogo tornou-se a sua principal ferramenta política.
Mas o maior desafio encontrava-se fora das salas de negociação laboral. Enquanto a opinião pública acompanhava o debate político, decorria um intenso trabalho de bastidores para fazer chegar à Madeira competências que permaneciam na administração central. Era necessário preparar diplomas, negociar com sucessivos ministros, convencer a República da capacidade da Região para assumir novas responsabilidades e acompanhar a instalação dos novos serviços.
Na entrevista ao podcast Rostos da Autonomia, resume esse processo numa ideia simples: "A autonomia não se fez apenas nos discursos. Fez-se regionalizando serviços."
Ao longo de quase um quarto de século integrou os sete primeiros governos regionais, tornando-se o único madeirense com presença ininterrupta nesse período fundador. Passou pelas áreas do Trabalho, Assuntos Sociais, Saúde, Administração Pública, Agricultura, Florestas e Pescas, acompanhando diferentes fases da consolidação institucional da autonomia. Em cada uma delas participou na organização de estruturas que, entretanto, passaram a fazer parte da normalidade administrativa da Região.
Foi precisamente na Agricultura que protagonizou outro dos momentos marcantes do seu percurso político. Enquanto secretário regional impulsionou a candidatura da Floresta Laurissilva a Património Mundial da UNESCO, recordando que, numa fase inicial, existiam duas candidaturas distintas — a da Laurissilva e a das levadas. A opção por concentrar todos os esforços na floresta revelou-se decisiva para alcançar o reconhecimento internacional que hoje constitui um dos maiores símbolos naturais da Madeira.
Na conversa recorda também a relação institucional com Lisboa e reconhece que a firmeza política de Alberto João Jardim acabava muitas vezes por facilitar as negociações. "Havia vontade de evitar conflitos e isso ajudava a encontrar soluções", afirma, sublinhando, porém, que por detrás desse confronto existia um trabalho persistente de natureza técnica e administrativa, desenvolvido pelos diferentes membros do Governo Regional.
Mesmo depois de abandonar funções governativas, em 2000, nunca deixou de acompanhar a evolução da autonomia. Continua a defender que o processo permanece inacabado, apontando como desafios futuros o aprofundamento das competências regionais, designadamente na gestão do mar, e um modelo de financiamento que tenha plenamente em conta os custos permanentes da insularidade.
Mais do que um político de grandes discursos, Manuel Jorge Bazenga Marques representa uma geração de governantes que consolidou a autonomia através da negociação, da organização administrativa e da transferência efectiva de competências. Um trabalho quase invisível para a maioria dos madeirenses, mas essencial para transformar o novo regime autonómico numa realidade institucional duradoura. A autonomia que hoje existe também se construiu nesse paciente trabalho de bastidores.
A entrevista completa pode ser vista e ouvida no podcast 'Rostos da Autonomia', disponível em dnoticias.pt.