Choque em Cadeia na Ponte

A estrada não é uma pista de rali, e confundir a adrenalina da competição com a condução diária nas nossas estradas mais rápidas é o primeiro passo para uma tragédia anunciada. Na época do Rali, em que o entusiasmo pelo automobilismo anda ao rubro, torna-se imperativo dar um “puxão de orelhas” aos condutores e lembrar que a física não tolera imprudências. Fora das nossas localidades, a velocidade é o principal condicionador das distâncias de reação e de travagem.

O choque na Ponte Vasco da Gama desta semana com meia dúzia de viaturas e feridos, lembrou-me o choque do ano passado na ponte Ribeira João Gomes, também com vários feridos, incluindo uma criança; e fez-me lembrar também um choque há uns anos na A25 com uma centena de viaturas e... 25 mortos! Sou Bombeiro e Instrutor, e prefiro salvar vidas antes dos acidentes acontecerem: esta carta é para todos quantos me lerem, em papel ou no digital, pelo mundo fora!

A matemática é implacável. A 100 km/h, um veículo percorre cerca de 25 metros (um quarto da velocidade) em apenas 1 segundo, tempo em que apenas nos apercebemos do perigo e reagimos. A distância de travagem obedece à fórmula VxV/100. Isto significa que ao duplicar a velocidade, a travagem não duplica... o perigo quadruplica! Se a 40 km/h travamos em 16 metros, a 80 km/h precisamos de 64 metros. No total, a 100 km/h, a distância de paragem aproxima-se dos 100 metros.

Quando falhamos em cumprir o Artigo 18.º do Código da Estrada - sob pena de coima de 60 a 300 euros -, o desastre acontece. E um choque em cadeia numa ponte é dramático: centenas de carros parados, milhares de pessoas retidas em filas intermináveis (afetando o trabalho ou emergências médicas), pesados danos financeiros e, acima de tudo, lesões físicas graves e perdas de vidas.

Como sugestão de segurança, jogue pelo seguro: mantenha uma distância próxima de dois segundos do veículo da frente. Conte pausadamente “um mil e um, um mil e dois” quando ele passar por um ponto fixo. À velocidade das vias rápidas, garanta em metros pelo menos metade da velocidade do velocímetro (50 metros a 100 km/h).

A prevenção não é sinal de medo, é sinal de inteligência. Sejamos campeões da condução defensiva, pois na estrada da vida o único troféu que realmente importa é chegar a casa em segurança.

Duarte de Sousa Melim