Liderança não é sinónimo de Obediência

Ainda bem que ninguém levou a sério a sugestão de Donald Trump para que Gianni Infantino se candidatasse a Secretário-Geral da ONU. A cumplicidade entre ambos levanta uma questão inevitável: depois de ver Infantino vergar-se aos interesses de Trump, até no próprio futebol, fica claro que a Casa Branca pretendia apenas um líder dócil e obediente.

Para Trump, as instituições internacionais só têm utilidade enquanto aplaudem ou obedecem. Sempre que discordam, tornam-se alvo de ataques, insultos e campanhas de descredibilização – algo que António Guterres e a ONU bem conhecem. Contudo a ONU foi fundada para promover o diálogo entre as nações, e não para servir de amplificador aos caprichos de um qualquer líder mundial. O papel do Secretário-Geral é actuar como um intermediário imparcial, capaz de facilitar o entendimento e promover soluções diplomáticas em cenário de conflito.

Felizmente, a escolha para este cargo não depende da vontade de um único país ou presidente. Existem regras, equilíbrios e mecanismos institucionais concebidos precisamente para travar tentações de concentração excessiva de poder.

A História demonstra que o modelo de governação que Trump tem vindo a defender representa um risco sério para a democracia. O culto da personalidade nunca foi – nem será – um aliado da liberdade.

Para nosso contentamento, esta proposta não passou de mais um episódio de uma política cada vez mais refém do espectáculo e da provocação. Liderar exige independência, discernimento e sentido de Estado. A obediência cega é o oposto da verdadeira liderança.

Carlos Oliveira