BCE pode subir novamente os juros em Setembro
Na reunião desta semana, a 23 de Julho, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu não mexer nas taxas de juro de referência, como era, aliás, esperado pelo mercado. A presidente do BCE deu conta de que foi uma decisão unânime, mas que alguns membros se questionaram se não deveriam aumentar. Os analistas antecipam que as taxas directoras possam voltar a subir em Setembro.
A 11 de Junho, na anterior reunião de política monetária, o BCE aumentou, pela primeira vez desde 2023, as três taxas directoras em 0,25 pontos percentuais, para responder ao aumento dos preços globais provocado pelo conflito do Médio Oriente.
Sofia Carraca Teixeira , 08 Julho 2026 - 22:00
Com a decisão tomada esta semana, as taxas mantêm-se nos níveis em vigor desde 11 de Junho, fazendo com que a taxa de facilidade permanente de depósito (DFR, Deposit Facility Rate) tenha subido para 2,25%, a das operações de refinanciamento (MRO, Main Refinancing Operations Rate) para 2,40% e a da facilidade permanente de cedência de liquidez (MLF, Marginal Lending Facility) para 2,65%.
Em comunicado, o BCE vinca que a “incerteza” permanece “elevada” e que o impacto inflaccionista total do choque energético ainda deveria “se materializar”. “As perspetivas para os preços da energia, embora muito voláteis, situam-se actualmente num nível próximo ao do cenário de referência das projecções dos especialistas” do BCE de Junho e claramente acima dos níveis registados antes do início do conflito no Médio Oriente, explica.
A reunião de Julho, na passada sexta-feira, decorreu num momento marcado pela nova escalada de tensões entre os Estados Unidos da América e o Irão, e com os preços do petróleo submetidos a flutuações devido à incerteza do futuro sobre a navegação no estreito de Ormuz.
Lagarde admite possível subida em Setembro
A presidente do BCE disse que o Conselho de Governadores manteve por unanimidade as taxas directoras, mas que alguns membros se questionaram se não deveriam aumentar. Christine Lagarde acrescentou que em Setembro o BCE terá mais dados novos para tomar a decisão sobre as taxas e que por isso é possível que decida aumentá-las então. A próxima reunião de política monetária realiza-se a 9 e 10 de Setembro, em Berlim.
Admitiu que a continuação do agravamento da guerra no Médio Oriente pode resultar numa inflacção mais forte do que o previsto, precisando que um eventual aumento das taxas directoras dependerá da evolução dos preços. Lagarde sublinhou que o BCE não dá uma orientação de sua política monetária e que tomará as decisões sobre as taxas de juro em cada reunião de acordo com os dados económicos.
Agência Lusa , 23 Julho 2026 - 13:53
Analistas prevêem nova subida das taxas de juro
O cenário de manutenção das taxas de juro em Julho era já antecipado por vários economistas, consultados pela Reuters, entre 13 e 16 de Julho. Contudo, uma maioria de 70% desse painel de especialistas acreditava que o BCE voltaria a subir os juros ainda este ano, na reunião de Setembro.
“Embora o BCE tenha mantido as taxas inalteradas, parece agora mais provável que volte a subir as taxas na sua próxima reunião”, antecipa Matthew Ryan, analista da Ebury, sublinhando que “à primeira vista” nada aponta “claramente para uma política monetária mais restritiva”.
A posição é corroborada por Tina Fong, economista e estratega da Schroders, que salienta que os dados da inflacção de Junho “trouxeram algum alívio bem-vindo, mas não o suficiente para que os decisores políticos declarassem vitória” e que “a inflacção global continua acima da meta de 2% do BCE”.
Por outro lado, “a retórica recente do banco central tem sido relativamente agressiva” e “os preços do petróleo voltaram a subir, aumentando o risco de uma inflacção mais elevada”, assinala ainda Tina Fong, realçando que todo este contexto aponta para que “o BCE aumente as taxas em 0,25% em Setembro”.
Henrique Valente, analista da ActivTrades, antecipa que “o crescimento económico deverá continuar modesto no curto prazo, com riscos predominantemente negativos” e que os “custos energéticos mais elevados poderão penalizar os rendimentos reais, o consumo e o investimento”. Nesse contexto, vê as palavras da presidente de Lagarde, como “ligeiramente menos restritiva do que alguns investidores esperavam”.
Por seu turno, há também quem ache que o banco central não mexe mais nos juros este ano e só o deverá fazer de novo em 2027. É o caso de David Kohl, economista-chefe do grupo suíço Julius Baer. Esta parece ser, ainda assim, a opinião menos popular entre os especialistas, que acreditam mesmo em mexidas ainda em 2026.
Inflacção superior ao objectivo
O objectivo do BCE é “assegurar que a inflacção estabiliza no objectivo de 2% a médio prazo”, mas, para já, este indicador ainda está acima do objectivo. De acordo com o Eurostat, a inflacção anual da Zona Euro foi de 2,8% em Junho, o que, ainda assim, representa um abrandamento do ritmo de subida comparativamente com os 3,2% de Março.
O impacto da guerra no Médio Oriente nos preços do petróleo tem sido um dos principais factores impulsionadores da inflacção, com os produtos energéticos a registarem a taxa anual mais elevada (8,5%, em Junho) entre todos os principais componentes da inflacção.