DNOTICIAS.PT
Artigos

Bento Gonçalves, Secretário Geral do PCP, o escultor na prisão do Tarrafal

Mesmo no ambiente desumano do campo de concentração em Cabo Verde, Bento Gonçalves ensinava e ajudava os outros presos a aprender.

Os prisioneiros lutavam contra o isolamento físico e mental com a educação. Bento Gonçalves, lecionava várias disciplinas: Matemática Superior, Inglês, Francês, Espanhol e um pouco de Alemão, além de outros temas, Noções de Economia Política e História.

Apesar dos cadáveres, do enigma trágico do “Posto de Socorros” do trabalho na pedreira e na vala sob um sol abrasador, poucos foram aqueles que desanimaram e deixaram de estudar

Estas aulas funcionavam como uma forma de resistência activa. Os prisioneiros aproveitavam os poucos intervalos entre trabalhos forçados para manter a mente ativa e partilhar conhecimentos.

Bento Gonçalves acabou por falecer no Tarrafal a 11 de Setembro de 1942, vítima de doença e sem assistência médica adequada.

Se apanhado pela PIDE, ao serviço do católico Salazar, o autentico Cristo da Nazaré seria algemado, torturado e depois considerado como inimigo da “ordem” e julgado ou não por qualquer tribunal, logo se diria, sem necessidade de provas, que se tratava de um desordeiro, de um agente ao serviço de uma qualquer organização terrorista e deportado para o campo da morte lenta

Não era este Bento Gonçalves o próprio Jesus, visto que era um pedaço da sua alma, uma gota de sangue generoso que corria nas veias do grande sacrificado no Calvário?

O obelisco no Largo Sá de Bandeira, construído em 1939, para assinalar o tricentenário da Restauração de 1640 e então inaugurado pelo Presidente português, Óscar Carmona, tem inscrito nesse obelisco um “Escudo Português” executado por Bento Gonçalves.

Segundo um prisioneiro intelectual não comunista também preso, este viu o Bento no refeitório curvado sobre um livro de matemática, três dias depois morreu.

O Governador da Cidade da Praia necessitava de importantes trabalhos de arte feitos em bronze, dirigiu-se a uma grande metalúrgica de Lisboa encomendando-os. A empresa porém não os fez alegando ser-lhe absolutamente impossível entregá-los no prazo fixado pelo Governador.

“Pois bem”, disse o Bento, “eu os farei”. Juntou à sua volta outros artistas e sob a sua experiência e direção iniciaram s seus trabalhos.

Não havia ninguém para trabalhar o metal, nem fornos para o fundir, nem moldes para lhes dar a forma desejada. Mas tudo isso se fez com um esforço titânico.

Trabalharam de dia e de noite e no momento fixado pelo bravo Bento, a obra estava terminada: “dois escudos de bronze com as armas nacionais” que dias depois adornavam o obelisco inaugurado na zona alta da capital do arquipélago.

No campo de concentração para manter os presos em respeito existia a “ Frigideira” a soldadesca negra, as espingardas, as metralhadoras , as receitas do senhor doutor... o saco azul é o saco da sorte para o nababo do Diretor do Campo de Concentração .... este enche-se com as misérias, os sofrimentos, subalimentação dos reclusos.

Era preciso vigiar bem a correspondência, para não permitir que esses malandros dos deportados façam propagada contra a Pátria muitas cartas não chegam nunca ao seu destino ficam esquecidas no saco dos papéis.

Era membro do seu partido político de trabalhadores, cujo fim era a paz social, pela garantia a todos os seres humanos duma vida digna, alegre e feliz. E esse desejo de paz abrangia toda a gente, não era um exclusivo, pois até os próprios que o mandaram assassinar nada perderiam se a miséria, a indigência e a ignorância desaparecessem da superfície da terra.

E é este homem, glória do trabalho português, este artista de excelência, que foi dentro de um caixão amarelo em decomposição já, morto pela biliosa executado pelo carrasco mosquito em nome da ditadura.