Presidentes de Cabo Verde e Portugal juntos no Tarrafal num apelo pela liberdade
Os presidentes de Cabo Verde e Portugal juntaram-se hoje num apelo para que todos cuidem da liberdade, que nunca pode ser dada por adquirida, após visitarem juntos o Museu da Resistência, antigo campo de concentração do Tarrafal.
"Quis vir ao Tarrafal nesta visita de Estado a Cabo Verde para escutar e ver os horrores que aqui se praticaram, a desumanidade e a morte que também houve neste campo", referiu António José Seguro, numa declaração à saída do campo.
Ao mesmo tempo, como Presidente da República de Portugal, quis "prestar homenagem aos que lutaram" pelo que hoje existe: "a liberdade, um bem essencial".
"Sei que as novas gerações podem considerar que a liberdade é um bem adquirido, mas não é. No Tarrafal houve muita gente que sofreu, muita dor, muita morte para permitir que hoje possamos viver essa liberdade em Cabo Verde e Portugal", acrescentou.
Seguro lançou um apelo às novas gerações, para que "cuidem bem da liberdade",
"Muita gente só se lembra do valor da água quando tem sede. Eu desejo às novas gerações que nunca sintam essa privação. Precisamos de cuidar sempre da liberdade, sem liberdade não somos absolutamente nada", concluiu.
Ao lado, o Presidente cabo-verdiano assinalou o campo como "um espaço de memória" em honra de quem lutou pela liberdade e dignidade humana.
"É importante visitarmos o Tarrafal para podermos reafirmar o nosso compromisso com uma luta permanente pela liberdade", assinalou.
Os dois chefes de Estado foram guiados por especialistas cabo-verdianos sobre a história do campo numa visita a todo o complexo e, pelo caminho, Seguro ia interpelando os visitantes que encontrava.
"Viemos ver esta parte má da nossa história. Acho que não a devemos esquecer", referiu uma das pessoas num grupo familiar, oriundo de Portugal, que quis mostrar o espaço sobretudo aos filhos adolescentes.
António José Seguro dirigiu-lhes o apelo direto: "É preciso não dar a liberdade por adquirida, é preciso cuidar dela como se fosse uma flor".
Mais à frente, abordou um grupo de turistas franceses: "já vos explicaram o que era este espaço", perguntou.
Entre hesitações, sintetizou: "um espaço de detenção de pessoas com ideias diferentes do regime fascista de Salazar", disse, num diálogo a poucos metros de uma parede onde estão inscritos os nomes das vítimas mortais do campo.
A todos foi prestada homenagem pelos dois chefes de Estado, com a deposição de uma coroa de flores na lápide instalada no centro do recinto.
O campo de concentração do Tarrafal encarcerou presos políticos sob domínio colonial português em duas fases, entre 1936 e 1954 e entre 1961 e 1974, período durante o qual sofreu várias alterações.
Ao todo, foram presas no "campo da morte lenta" mais de 500 pessoas.
Numa lápide evocativa erguida no interior do campo estão inscritos os nomes de 36 pessoas que ali morreram: 32 portugueses, dois guineenses e dois angolanos.